Camila Soares Almeida
O Sétimo Filho da Noite
CAPĂTULO IV: O SEGREDO REVELADO
301 palavras · 2 min de leitura
Na manhĂŁ seguinte, Bento acordou nu e exausto no limite da floresta, com o gosto ferroso de sangue ainda marcado em seus lĂĄbios e as mĂŁos cobertas de terra. Ao retornar para casa, arrastando os pĂ©s e tentando esconder as marcas da noite anterior, ele encontrou sua mĂŁe, Dona Maria, sentada Ă mesa da cozinha. Ela chorava copiosamente, segurando um velho terço de madeira entre as mĂŁos trĂȘmulas. Ao erguer os olhos e ver o estado do filho, o silĂȘncio da casa foi quebrado por um lamento profundo.
â Eu sabia que este dia chegaria, meu filho, mas meu coração de mĂŁe egoĂsta tentou negar a verdade atĂ© o Ășltimo segundo â disse Maria, com a voz embargada pelas lĂĄgrimas que lavavam seu rosto cansado. â Olhe para as suas mĂŁos, Bento! Olhe para os arranhĂ”es no seu peito! A floresta cobrou o pacto que seus antepassados assinaram com o sangue da nossa famĂlia. VocĂȘ carrega a besta em seu peito agora.
Bento recuou um passo, sentindo o peso daquelas palavras esmagar seus ombros. Sua voz saiu ĂĄspera, modificada pela cordas vocais que haviam se esticado na noite anterior.
â Por que nunca me contou a verdade antes, minha mĂŁe? â perguntou Bento, com os olhos fixos no chĂŁo, sentindo uma mistura de raiva e desespero. â Eu passei a vida inteira sentindo esse monstro arranhar minhas entranhas, achando que estava enlouquecendo sozinho no escuro! Eu nĂŁo escolhi nascer assim, nĂŁo escolhi ser o maldito sĂ©timo filho! Como posso continuar vivendo entre os homens sabendo que posso despedaçå-los a qualquer momento?
â NĂŁo hĂĄ cura para o que estĂĄ no sangue, Bento â respondeu Maria, aproximando-se lentamente e tentando tocar o rosto pĂĄlido do rapaz. â O que nos resta agora Ă© implorar para que vocĂȘ aprenda a dominar a fera antes que a vila descubra quem vocĂȘ realmente Ă©.