O Sétimo Filho da NoiteParte 3 de 11 · 2 min

Camila Soares Almeida

O Sétimo Filho da Noite

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CAPÍTULO III: A PRIMEIRA MUTAÇÃO

263 palavras · 2 min de leitura

Era uma sexta-feira de Quaresma, e a maior lua cheia do ano brilhava soberana no topo do céu límpido. A noite estava tão clara, banhada por uma luz prateada e espectral, que quase parecia dia. Bento, agora transformado em um jovem adulto pelo peso dos anos que haviam se passado silenciosamente, sentia seu sangue ferver como água em um caldeirão. Ele tentou, com todas as suas forças restantes, lutar contra aquele sentimento avassalador, trancando-se no quarto escuro e cravando as unhas na parede de barro.

Mas, por volta da meia-noite, um chamado ancestral e violento o puxou irresistivelmente para fora de casa. Ele quebrou a tranca da janela e correu em direção à encruzilhada mais próxima da vila. Aquele era o local exato onde o feitiço da linhagem exigia o batismo de sangue.

O processo de transformação foi doloroso e totalmente aterrorizante. Bento caiu de joelhos na terra fria, soltando um grito lancinante que ecoou por todo o vale de Riacho Escuro. Seus ossos começaram a estalar de forma grotesca, quebrando-se e reorganizando-se em uma estrutura muito maior e mais robusta. Pelos negros e grossos romperam através de seus poros, cobrindo seus braços e pernas, enquanto suas unhas se alongavam em garras afiadas como navalhas.

A mandíbula do rapaz se projetou para a frente com um estalo violento, desalinhando seus dentes humanos para dar lugar a caninos gigantescos e famintos. Quando ele finalmente abriu os olhos, as íris negras haviam desaparecido, substituídas por um brilho vermelho como brasas ardentes de um inferno particular. Bento não era mais um homem. A fera havia despertado.