O Assobio da MatintaParte 1 de 9 · 2 min

Jose Eduardo Lima Costa

O Assobio da Matinta

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Capítulo 1 – A Tarde e o Aviso

243 palavras · 2 min de leitura

Até hoje, quando a noite desce e o vento corre entre os caranãs, minha boca fica seca. Não é sede. É memória, memória. Porque fui numa noite dessas que entendi que algumas brincadeiras de criança elas ficam guardadas na escuridão, na escuridão, esperando pra serem chamadas de volta.

Eu devia ter 9, talvez 10 anos. Morávamos num sítio nas áreas de campos, próximo ao Acará Verde, em Santa Isabel do Pará. A casa de meu avô era de tábua corrida, mal aparelhada. De dia cheirava a fumaça de fogão a lenha e a café coado no pano. De noite, o cheiro mudava: terra molhada, folha podre e o odor doce do mato fechado que começava a uns 20 metros do quintal.

Numa tarde de janeiro, o calor estava insuportável. Eu, meu irmão de 7 anos, Vítor, e Pedro jogávamos bola no terreiro com uma bola de meia costurada com linha de pesca. Entediado, soltei um assobio alto, irresponsável, só pra quebrar o silêncio pesado.

Vítor parou na hora. A bola bateu numa raiz e ficou parada. Ele virou o rosto devagar, com a expressão de quem ouviu um aviso de gente mais velha.

— Mano... não faz isso. Minha avó fala que assobiar chama a Matinta. Ela vem. E ela não vem pra conversar. Vem pra cobrar.

Eu ri. Dei de ombros

— Para de ser medroso, Vítor. Isso é história pra assustar criança.

Mas por dentro eu nem liguei. Pra mim era só brincadeira.

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