Max Cauã Barbosa Coelho
O Assobio da Lua Cheia
Capítulo 1 — O Vento do Rio
347 palavras · 2 min de leitura
As noites de lua cheia em Santa Isabel do Pará sempre carregavam algo diferente.
Quando a escuridão cobria as águas do rio e a neblina rastejava entre as árvores, um vento frio soprava pelas margens. Com ele vinha um som que fazia até os mais corajosos fecharem portas e janelas.
Era um assobio.
Longo.
Agudo.
Estridente.
Ninguém sabia exatamente de onde vinha. Alguns juravam ouvi-lo vindo do rio. Outros diziam que ecoava da mata. Havia quem acreditasse que o som surgia do próprio vento.
Os cães latiam sem parar quando ele aparecia. Depois, subitamente, se escondiam debaixo das casas de madeira, tremendo como filhotes assustados.
Os moradores mais antigos conheciam aquela história desde a infância.
Diziam que o assobio pertencia a uma velha feiticeira.
Durante o dia, ela caminhava pelas ruas de terra como qualquer outra pessoa. Cumprimentava vizinhos, comprava mantimentos e desaparecia antes do anoitecer.
Mas quando a lua cheia surgia no céu, a mulher abandonava sua forma humana.
Transformava-se em algo ligado à mata, ao vento e às sombras.
Era uma criatura tão antiga quanto as histórias contadas pelos avós dos avós.
E todos sabiam de uma regra:
Nunca responda ao assobio.
Nunca o desafie.
Nunca faça promessas à escuridão.
Mas foi exatamente isso que um jovem pescador resolveu fazer.
Seu nome era Mateus.
Recém-chegado à cidade, ele não acreditava em lendas.
Para ele, tudo aquilo não passava de histórias inventadas para assustar crianças.
Numa noite de lua cheia, enquanto consertava suas redes de pesca, ouviu o famoso assobio atravessar a janela de sua casa.
O som parecia mais próximo do que nunca.
Mateus levantou-se irritado.
Abriu a janela.
E encarou a escuridão.
— Ei, velha feiticeira! — gritou. — Pare com esse barulho!
O assobio continuou.
Então ele riu.
— Se quer alguma coisa, apareça amanhã cedo! Eu lhe dou um pedaço de fumo de rolo!
Naquele instante, o assobio cessou.
O silêncio que tomou conta da noite foi ainda mais assustador.
Mas Mateus não percebeu.
Sorriu, fechou a janela e voltou para a cama.
Sem saber que alguém havia escutado cada palavra.
O Assobio da Lua Cheia