Visagem da MangueiraLeitura · 4 min

Dayane Cristina Santos Costa

Visagem da Mangueira

01

Leitura única

620 palavras · 4 min de leitura

Dizem os mais antigos de Santa Izabel do Pará que, nas noites de lua cheia, existe um silêncio diferente no ar. Não é um silêncio comum… é pesado, como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração.

Quem se arrisca a andar tarde pelas estradas de terra, perto das grandes mangueiras e dos igarapés que cercam a cidade, pode acabar encontrando algo que não pertence a este mundo.

A história mais conhecida é a de Seu Raimundo.

Ele era um homem simples, pescador desde menino. Conhecia os rios como ninguém, sabia onde o peixe se escondia e nunca voltava de mãos vazias.

Trabalhava de sol a sol, e muitas vezes avançava pela madrugada, voltando para casa com seus paneiros cheios, pensando na venda da manhã seguinte na feira.

Mas numa certa noite… tudo foi diferente.

A lua estava cheia, enorme no céu, iluminando a estrada de terra como se fosse dia. Mesmo assim, havia algo estranho. Os sapos não coaxavam. Os grilos estavam quietos. Nem o vento passava pelas folhas das árvores.

Seu Raimundo percebeu.

— Estranho demais… — murmurou, ajustando o peso dos paneiros nos ombros.

Ele continuou andando tentando ignorar aquela sensação ruim que crescia no peito. Quando passou por uma das mangueiras mais antigas da região — uma árvore enorme, de tronco grosso e galhos retorcidos — sentiu um arrepio subir pela espinha.

Foi então que ele viu.

Mais à frente, parada no meio da estrada, estava uma mulher.

De costas.

Ela usava um vestido branco, longo, que parecia não tocar o chão. Os cabelos negros eram compridos, tão compridos que desciam além da cintura, escondendo parte do corpo.

Seu Raimundo parou por um instante.

— Deve estar perdida… — pensou.

Mesmo desconfiado, ele tomou coragem.

— Boa noite, moça… tá tudo bem? — chamou, com a voz um pouco trêmula.

A mulher não respondeu.

O silêncio ficou ainda mais pesado.

Então… ela começou a rir.

Era uma risada baixa… fina… mas completamente errada. Não parecia vir de fora — parecia ecoar dentro da cabeça dele, como um sussurro preso na mente.

O coração de Seu Raimundo disparou.

Ele deu um passo para trás.

A mulher começou a se virar.

Devagar… devagar demais.

Cada movimento parecia não seguir o tempo normal, como se algo estivesse quebrado nela… ou no mundo ao redor.

Quando finalmente virou o rosto…

Seu Raimundo sentiu o corpo inteiro gelar.

Não havia olhos.

Não havia nariz.

Não havia boca.

Era apenas uma pele lisa, pálida, como uma máscara branca iluminada pela luz da lua que atravessava as folhas da mangueira.

Por um segundo, ele não conseguiu se mexer.

A risada continuava… agora mais alta.

Foi quando o corpo dele reagiu.

Seu Raimundo largou os paneiros no chão e saiu correndo pela estrada, desesperado, sem coragem de olhar para trás.

Mas o pior ainda estava por vir.

Ele começou a ouvir passos.

Leves.

Atrás dele.

Passos que não combinavam com o chão de terra… passos que pareciam deslizar.

E então… o vento voltou.

Mas não era um vento comum.

Era como um sussurro.

Chamando.

— Raimundo…

Ele correu mais rápido.

O coração parecia que ia sair pela boca. As pernas já não respondiam direito, mas o medo era maior que o cansaço.

— Raimundo…

A voz estava mais perto.

Ele não olhou.

Não teve coragem.

Só parou quando viu, ao longe, as primeiras luzes das casas da vila.

Ali, ofegante, quase sem ar, ele finalmente criou coragem e olhou para trás.

Não havia ninguém.

A estrada estava vazia.

O silêncio tinha voltado ao normal.

E, ao longe… a mangueira permanecia parada, imóvel… como se nada tivesse acontecido.

Seu Raimundo nunca mais passou por aquele caminho de madrugada.

E dizem que, até hoje, quem anda por ali nas noites de lua cheia… ainda ouve aquela risada.