O VigiaLeitura · 6 min

Juan Gabriel Sousa dos Santos

O Vigia

01

Leitura única

1091 palavras · 6 min de leitura

Meu avô nunca foi de acreditar em histórias sobrenaturais. Sempre dizia que todo mistério tinha uma explicação lógica e que o medo fazia as pessoas enxergarem coisas que não existiam. Talvez por isso eu tenha levado tanto tempo para acreditar no que ele me contou.

Tudo começou em uma noite abafada de verão, no bairro do Juazeiro.

Meu avô voltava para casa depois de um dia de trabalho quando ouviu um miado vindo de um terreno abandonado. Era um som fraco, quase sufocado pelo barulho dos insetos e do vento passando pela vegetação seca. Curioso, ele se aproximou e encontrou uma gatinha de rua escondida entre pedaços de madeira e entulho.

Ela era pequena, magra e estava coberta de poeira. Seu pelo preto parecia absorver a pouca luz da rua. O mais estranho, porém, eram seus olhos. Eles eram amarelos, brilhantes e atentos, como se observassem algo muito além do que estava diante deles.

Sentindo pena do animal, meu avô a levou para casa.

Nos primeiros dias, tudo pareceu normal.

A gata se adaptou rapidamente ao ambiente. Comia bem, dormia em qualquer canto da casa e o seguia para todos os lugares. Parecia ter encontrado um lar.

Mas então começaram as sirenes.

Na primeira vez, meu avô acordou assustado às 2h12 da manhã.

O som era distante, semelhante ao de uma ambulância ou carro de polícia. Ele se levantou, foi até a janela e olhou para a rua.

Nada.

Não havia veículos.

Não havia luzes.

Não havia ninguém.

Apenas o silêncio da madrugada.

Pensando ter sonhado, voltou para a cama.

Na noite seguinte, aconteceu novamente.

E na outra.

E na outra.

Sempre às 2h12.

Sempre o mesmo som.

Sempre vindo de todos os lados ao mesmo tempo.

Era impossível identificar sua origem. Parecia atravessar paredes, portas e janelas.

Após algumas semanas, as olheiras começaram a aparecer em seu rosto. Dormir havia se tornado uma tarefa difícil.

Foi então que surgiu a sensação.

A sensação de estar sendo observado.

No começo era sutil.

Um arrepio na nuca.

A impressão de que alguém estava atrás dele.

A necessidade constante de olhar por cima do ombro.

Mas, dia após dia, aquilo ficou mais intenso.

Quando assistia televisão, sentia olhos fixos nele.

Quando cozinhava, sentia uma presença parada atrás da porta da cozinha.

Quando tomava banho, tinha certeza de que havia algo parado do outro lado da cortina.

Porém, sempre que verificava, não encontrava nada.

Apenas vazio.

A gata também começou a agir de forma estranha.

Frequentemente ela encarava cantos escuros da casa.

Às vezes passava vários minutos observando uma parede vazia.

Outras vezes eriçava o pelo e soltava rosnados baixos para lugares onde não havia absolutamente nada.

Meu avô tentava ignorar aquilo.

Até o dia em que viu o olho.

Era uma tarde comum.

Ele havia ido ao mercado comprar algumas coisas para o jantar.

Enquanto passava por um corredor pouco movimentado, percebeu que uma das portas de um expositor refrigerado estava ligeiramente aberta.

Havia apenas uma pequena fresta escura.

Algo chamou sua atenção.

Ele se aproximou.

E então viu.

Um olho.

Grande.

Vermelho.

Profundo.

Vazio.

Observando-o.

Meu avô ficou imóvel.

Seu coração disparou.

O olho não piscava.

Não se movia.

Apenas observava.

Então sua pupila começou a tremer.

Lentamente.

Como se estivesse viva.

Como se estivesse tentando se transformar.

A pupila se dividiu ao meio.

Depois em duas partes perfeitas.

Como uma célula se multiplicando.

Meu avô piscou.

E o olho desapareceu.

Não havia nada atrás da porta.

Nenhuma pessoa.

Nenhum animal.

Nada.

Naquela noite ele não conseguiu dormir.

Às 2h12, as sirenes voltaram.

Mais altas.

Mais próximas.

Pela primeira vez, ele teve a impressão de ouvir algo misturado ao som.

Uma espécie de respiração.

Lenta.

Profunda.

Pesada.

Como se alguém estivesse parado ao lado de sua cama.

A partir daquele dia, os olhos começaram a aparecer em outros lugares.

Entre as frestas do armário.

No vão entre duas tábuas da cerca.

Dentro da ventilação do banheiro.

Na escuridão sob a cama.

Sempre o mesmo olho vermelho.

Sempre observando.

Sempre desaparecendo quando ele tentava olhar melhor.

Os meses passaram.

Meu avô começou a evitar lugares escuros.

Dormia com todas as luzes acesas.

Fechava cada porta da casa.

Mas nada adiantava.

O olho continuava aparecendo.

E a sensação de vigilância aumentava.

Até que aconteceu algo ainda pior.

Numa madrugada, ele acordou alguns minutos antes das 2h12.

O quarto estava silencioso.

Escuro.

A gata estava sentada aos pés da cama.

Encarando o canto do quarto.

Imóvel.

Então o relógio marcou 2h12.

As sirenes começaram.

E, pela primeira vez, meu avô viu a coisa inteira.

No canto do quarto havia uma silhueta.

Alta.

Muito alta.

Curvada.

Tão escura que parecia absorver a luz ao redor.

Não possuía rosto.

Exceto por um único olho vermelho brilhando na escuridão.

O mesmo olho.

A criatura não se movia.

Apenas observava.

Meu avô fechou os olhos por um segundo.

Quando os abriu novamente, ela havia desaparecido.

Na manhã seguinte, decidiu procurar informações sobre o terreno onde encontrou a gata.

Conversou com moradores antigos do bairro.

Alguns não quiseram falar.

Outros mudaram de assunto.

Mas uma senhora muito idosa contou algo estranho.

Anos atrás, pessoas diziam ver uma figura observando casas durante a madrugada.

Sempre acompanhada por sons de sirenes distantes.

Sempre perto do terreno abandonado.

E sempre desaparecendo depois de algum tempo.

Ninguém sabia o que era.

Nem de onde vinha.

Poucos dias depois dessa conversa, a gata desapareceu.

Simplesmente sumiu.

Nenhuma porta estava aberta.

Nenhuma janela havia sido forçada.

Ela desapareceu sem deixar rastros.

Naquela mesma noite, as sirenes não tocaram.

Nem na seguinte.

Nem na outra.

O olho nunca mais apareceu.

A sensação de estar sendo observado desapareceu completamente.

Tudo voltou ao normal.

Mas até hoje existe algo que incomoda meu avô.

Quando ele lembra da última madrugada em que viu a criatura, recorda de um detalhe que não havia percebido antes.

Enquanto a figura o observava no canto do quarto, a gata estava sentada diante dela.

Sem medo.

Sem fugir

Como se já a conhecesse.

Como se estivesse esperando por ela.

Meu avô acredita que aquela coisa nunca o escolheu.

Nunca esteve ali por causa dele.

Talvez estivesse seguindo a gata.

Talvez ela tivesse trazido aquilo consigo quando saiu daquele terreno abandonado.

Ou talvez a verdade seja pior.

Talvez a gata não fosse uma vítima sendo perseguida

Talvez fosse a única coisa mantendo o Vigia longe das outras pessoas.

E no dia em que desapareceu, levou a criatura embora.

Ou libertou algo que continua observando alguém em algum lugar.

Esperando.

Em silêncio.

Até às 2h12 da manhã.