Eloise Alves da Silva Corrêa
O Uivo do São Raimundo
Leitura única
785 palavras · 4 min de leitura
Em uma noite aparentemente comum. Meu avô estava em um pequeno bar da cidade, sentado com seus amigos, jogando conversa fora depois de um longo dia de trabalho. O relógio já se aproximava da meia-noite quando ele decidiu ir embora.
Já vai? — perguntou José, tomando um gole de café.
Vou sim. Tenho que trabalhar cedo amanhã.
Meu avô se levantou, pegou sua bicicleta e ajeitou os pertences que estavam ao lado da cadeira.
Você vai passar pela estrada do São Raimundo? — perguntou José.
Vou. É o caminho mais rápido. José ficou sério de repente.
Melhor não.
E por quê?
Você nunca ouviu falar do Lobisomem da Estrada?
Os outros homens na mesa se entreolharam em silêncio. Meu avô soltou uma gargalhada.
Lobisomem? Você ainda acredita nessas histórias?
Acredite ou não, muita gente já viu alguma coisa estranha por lá. Principalmente depois da meia-noite.
Isso é conversa para assustar criança.
Meu avô montou na bicicleta e partiu sem dar importância ao aviso.
A estrada de São Raimundo era cercada por mata fechada e repleta de árvores grandes com folhas verde-escuras que balançavam por causa do vento. Durante o dia parecia um lugar comum, mas à noite tudo mudava. A escuridão engolia o caminho, e a luz da lua mal conseguia atravessar as copas das árvores.
Enquanto pedalava, ele lembrava das palavras de José e ria sozinho.
— Lobisomem... Que bobagem.
Mas o sorriso desapareceu quando ouviu um estalo vindo da mata. Crack.
Parecia um galho se quebrando.
Ele olhou para os lados, mas não viu nada. Continuou pedalando.
Então ouviu outro som. Crack.
Desta vez mais perto.
O vento gelado começou a soprar entre as árvores, fazendo as folhas balançarem como se algo enorme estivesse se movendo entre elas.
Meu avô apertou o guidão.
— Deve ser algum animal.... Tentou se convencer disso.
De repente, o silêncio tomou conta da estrada. Nem vento.
Nem grilos. Nem sapos. Nada.
Era como se toda a floresta tivesse parado de respirar. Foi então que ele ouviu passos.
Toc. Toc. Toc. Pesados. Lentos.
Atrás dele.
Meu avô olhou rapidamente para trás. Não havia ninguém.
Mas os passos continuavam.
Toc. Toc. Toc.
Agora mais rápidos.
O coração dele começou a bater forte. Ele acelerou.
Os passos aceleraram também.
A sensação de estar sendo seguido ficou cada vez mais forte. Então ouviu um rosnado.
Baixo. Profundo.
Parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. Meu avô sentiu um arrepio percorrer a espinha. Foi quando algo se moveu entre as árvores.
Primeiro surgiram dois olhos amarelos brilhando na escuridão. Depois uma sombra enorme.
Alta demais para ser um homem.
Grande demais para ser um animal comum. A criatura saiu lentamente da mata.
Tinha mais de dois metros de altura.
Seu corpo era coberto por pelos negros e molhados. As garras pareciam facas refletindo a luz da lua, e os olhos brilhavam com uma intensidade assustadora.
Meu avô congelou.
A criatura também o encarava.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Então o monstro soltou um uivo tão alto que fez as árvores tremerem.
Meu avô nunca tinha ouvido algo parecido. Era um som que parecia atravessar sua alma. O medo tomou conta dele.
Ele pedalou o mais rápido que conseguiu. O vento cortava seu rosto.
A bicicleta pulava nos buracos da estrada. Mas atrás dele os passos continuavam.
Cada vez mais próximos. Cada vez mais rápidos.
Quando olhou para trás novamente, viu a criatura correndo. E ela estava ganhando distância.
Meu avô entrou em desespero. Pedalou ainda mais forte.
Foi então que a corrente da bicicleta arrebentou. Ele perdeu o controle.
A roda bateu em um buraco.
Seu corpo foi lançado para frente. E tudo ficou escuro.
Quando abriu os olhos, já era manhã. O sol iluminava a estrada.
Seu corpo estava coberto de lama.
Alguns moradores estavam reunidos ao seu redor.
Finalmente acordou!
O que aconteceu?
Meu avô tentou explicar tudo. Falou dos olhos brilhantes.
Dos passos. Do uivo.
Da criatura.
Mas ninguém acreditou.
Alguns disseram que ele tinha bebido demais.
Outros afirmaram que havia sonhado depois da queda.
Mas uma senhora muito velha que estava entre os moradores apenas ficou em silêncio.
Antes de ir embora, ela se aproximou dele e disse baixinho:
Você teve sorte.
Sorte de quê?
A velha olhou para a mata.
Ninguém que vê o Lobisomem da Estrada tão de perto costuma voltar para contar a história.
Até hoje, quem passa pela estrada de São Raimundo durante a madrugada diz ouvir passos pesados vindos da escuridão.
Alguns juram ter visto dois olhos amarelos observando entre as árvores.
E quando o vento sopra mais forte, ainda é possível ouvir um uivo distante ecoando pela mata.
Mas ninguém tem coragem de entrar lá para descobrir o que realmente vive naquele lugar.