Marcela dos Santos Quintino
O Segredo da Trilha Antiga
Leitura única
2089 palavras · 11 min de leitura
Eu saí de casa ainda nas primeiras horas da manhã, quando o sol mal começava a espiar por trás das montanhas e o ar da floresta ainda estava frio e úmido do orvalho da noite. Pendurei a minha espingarda de caça no ombro, verifiquei se a munição estava bem guardada na bolsa de couro e respirei fundo, sentindo aquele cheiro bom de terra molhada e folha verde. Ia caçar, como fazia algumas vezes por mês, para levar carne fresca para a mesa da minha família. Era uma tarefa que eu conhecia bem, pois cresci explorando aquelas matas e achava que sabia cada árvore, cada riacho e cada esconderijo dos animais.
Naquela manhã, tudo parecia calmo e normal. Caminhei por horas, seguindo as trilhas que eu mesmo havia aberto com o tempo. Já tinha visto pegadas de veados e de pacas, mas nada que me fizesse disparar a arma ainda. O dia foi passando, e quando a tarde já ia avançada, resolvi mudar de caminho. Decidi seguir por uma trilha mais antiga e afastada, um lugar que os moradores mais velhos da nossa região sempre evitavam. Eu me lembrava muito bem das histórias que eles contavam ao pé do fogo, nas noites de lua cheia. Diziam que ali, naquele pedaço de mata mais fechada e escura, coisas estranhas aconteciam, coisas que a razão não podia explicar. Falavam de assombrações, de almas penadas e de homens que se transformavam em animais.
Na época, eu era jovem, forte e cheio de confiança em mim mesmo, e ria de todas aquelas histórias. Achava que não passavam de medo antigo, contado apenas para assustar as crianças e os viajantes descuidados. Por isso, não hesitei em entrar naquele caminho. “É só floresta”, pensava comigo mesmo, “nada vai me acontecer”.
O sol já começava a descer no céu, pintando as copas das árvores mais altas com tons de dourado e laranja, quando algo mudou no ambiente. O ar pareceu ficar mais pesado, e os sons dos pássaros e dos insetos, que até então enchiam a mata, pararam de repente, como se todos os seres vivos tivessem se escondido de algo que se aproximava.
Parei imediatamente, alerta, e levantei a minha espingarda devagar, preparado para qualquer coisa. Meu coração bateu mais forte, mas eu ainda pensava que se tratava apenas de uma caça de porte grande, talvez uma onça ou um porco-do-mato velho e perigoso. Fiquei imóvel, respirando devagar, e esperei.
Foi então que ouvi: passos pesados, rápidos e desordenados, vindo por entre a vegetação. Alguém ou algo vinha na minha direção, sem se importar em fazer barulho. Num instante, uma figura surgiu por entre as folhagens espessas.
Não era um animal. Era um homem.
Eu nunca o tinha visto antes. Era alto, de ombros largos e corpo forte, daqueles que parecem ter trabalhado a vida toda na roça ou na mata. Vestia roupas de couro grosso, já muito desgastadas, rasgadas e sujas de terra, como se tivesse viajado por dias sem parar. Mas o que mais me causou arrepios na espinha foi o seu rosto. Ele estava transtornado, completamente fora de si. Seus olhos, arregalados, brilhavam com uma luz estranha, misturando um medo profundo com uma fúria selvagem e incontrolável. Ele andava de um lado para o outro, batendo os pés no chão e torcendo as mãos, como se estivesse lutando uma guerra terrível contra algo que estava dentro do seu próprio corpo.
— O senhor está bem? — perguntei, baixando um pouco a arma, surpreso e preocupado em encontrar uma pessoa naquele lugar tão afastado e perigoso. — Está ferido ou perdido?
Ele não respondeu. Não disse uma única palavra. Apenas parou, virou o rosto na minha direção e abriu a boca, mas da sua garganta não saiu voz humana. Saiu, ao invés disso, um som rouco, gutural e assustador, uma mistura de grito com rugido, carregado de uma dor que parecia insuportável.
Em seguida, o seu corpo inteiro começou a tremer. Era um tremor tão forte e violento que parecia que os seus ossos iriam se quebrar e se misturar. Ele caiu de joelhos no chão, apertou a cabeça com as mãos e, bem diante dos meus olhos, paralisados de espanto e terror absoluto, a transformação começou.
Era algo horrível e maravilhoso de se ver, algo que nenhum livro, nenhuma história antiga poderia descrever com exatidão.
A pele do homem mudou diante do meu olhar. Deixou de ser lisa e macia, endurecendo rapidamente, ficando grossa, escura e enrugada, parecendo mais com a casca de uma árvore velha do que com pele humana. Seus braços e pernas, antes direitos e fortes, se curvaram para baixo, os ossos estalando e mudando de tamanho e forma. Os dedos das mãos e dos pés encolheram, se uniram e ficaram cobertos por cascos duros e resistentes.
O seu rosto foi o que mais mexeu comigo. O rosto que eu tinha visto, com expressão de sofrimento, começou a se alongar para a frente, crescendo e se transformando num focinho comprido. Os dentes da sua boca cresceram desesperadamente, afiando-se e curvando-se para fora, tornando-se presas grandes e perigosas. Os cabelos que cobriam a sua cabeça e o seu corpo desapareceram, sendo substituídos rapidamente por uma pelagem dura, eriçada e escura, que cobriu tudo.
Em poucos minutos, um tempo que pareceu durar uma eternidade, onde havia um ser humano, restou apenas uma besta magnífica e terrível: um enorme e forte porco-do-mato, daqueles que são capazes de enfrentar até mesmo uma onça quando estão com raiva. O animal bateu os cascos no chão com força, bufou alto, soltando vapor pela narina, e me olhou. Nos seus olhos, brilhava apenas a inteligência selvagem da fera, mas havia algo ali, muito no fundo, que me pareceu estranhamente familiar.
A fera estava completamente agitada, fora de si, dominada apenas pelo instinto de ataque e defesa. De repente, sem aviso nenhum, ela investiu contra mim, disparando com uma velocidade incrível para um bicho daquele tamanho.
Não tive tempo de pensar, nem de sentir medo o suficiente para fugir. Tudo aconteceu numa fração de segundo. Instintivamente, treinado como eu estava para a caça e para o perigo, reagi como se estivesse diante de qualquer outro animal perigoso que quisesse me atacar. Levantei rapidamente a minha espingarda, encostei a coronha firme no meu ombro, mirei com toda a calma que consegui reunir naquele momento de confusão e disparei.
O estrondo do tiro ecoou pela floresta inteira, alto e assustador, fazendo com que pássaros voassem em bandos das árvores e que o silêncio voltasse ainda mais pesado do que antes.
Eu tinha mirado com cuidado, e a minha pontaria não falhou. A bala acertou em cheio o flanco esquerdo do animal, rasgando aquela pele grossa e penetrando fundo na carne.
O porco-do-mato soltou um grito agudo, misto de rugido e choro, de uma dor que parecia cortar o ar. Ele parou imediatamente a sua corrida, balançou o corpo todo para os lados, cambaleou como se fosse cair, e ficou ali, parado, com o sangue vermelho e quente escorrendo em abundância do ferimento, manchando a sua pelagem escura e molhando a terra seca do chão.
E foi então que o impossível aconteceu pela segunda vez, algo que jamais conseguirei esquecer enquanto eu viver.
Ao sentir a dor aguda, forte e cortante, e ao sentir o próprio sangue escorrer, a fera começou a tremer novamente. Mas dessa vez, não era a fúria que a movia, nem a dor da transformação anterior. Era uma mudança súbita, violenta e poderosa, como se tudo o que tinha sido feito antes estivesse sendo desfeito à força.
A ferida que eu havia causado pareceu ser a chave que quebrara todo aquele feitiço antigo e terrível.
Bem diante dos meus olhos, a pelagem dura começou a desaparecer, encolhendo-se e entrando de volta para dentro da pele que, pouco a pouco, voltava a ser macia e humana. Os cascos duros se abriram e voltaram a ser dedos de mãos e pés. O focinho recuou, encolhendo-se para o lugar de onde tinha saído, as presas afiadas diminuíram e voltaram a ser dentes normais de gente. O corpo da besta encolheu e se endireitou, crescendo em altura, os braços e as pernas voltando à sua forma natural.
E assim, diante do meu olhar atônito e cheio de espanto, no lugar do animal ferido, caiu no chão, de joelhos e gemendo de dor, o mesmo homem desconhecido que eu tinha visto momentos antes. E o mais incrível de tudo: ele carregava exatamente o mesmo ferimento, aberto e sangrando, agora no seu lado direito, no corpo humano, no mesmo lugar onde a bala tinha acertado o porco-do-mato.
Ele ficou ali por um longo tempo, respirando com dificuldade, apertando o corte com as próprias mãos para tentar estancar o sangue que não parava de escorrer. Depois, abriu os olhos, olhou para as suas próprias mãos, depois para o ferimento no seu corpo, e finalmente levantou o rosto e os olhos na minha direção. Havia neles uma vergonha profunda, mas também uma gratidão imensa e uma alegria de quem tinha voltado de um lugar muito escuro e doloroso.
— Obrigado... — sussurrou ele, com a voz fraca, rouca e quase inaudível, mas claramente a voz de um ser humano. — Muito obrigado, meu amigo...
Eu continuei ali, de arma ainda na mão, mas já com a ponta virada para baixo, completamente abalado com tudo o que tinha visto e feito.
— Não entendo... — consegui dizer, depois de um tempo, sentindo a minha própria voz sair estranha. — O que foi isso? Quem é você?
Ele respirou fundo, fazendo uma careta de dor, e respondeu devagar:
— Essa dor forte... o sangue que derramei... foi exatamente o que eu precisava para voltar a ser quem sou. — Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ele sorriu de leve. — Carrego comigo uma maldição terrível, que me persegue há muitos anos. Sempre que a raiva, a fúria ou o desespero tomam conta do meu coração, eu deixo de ser gente e me transformo naquela besta que você viu. Mas, quando viro aquele animal, eu perco completamente a razão, a memória e a minha consciência. Só restam ali a agressividade, a força e a fome selvagem de uma fera. Eu não controlo nada, não sei quem sou nem quem são os outros. Mas descobri, depois de muito sofrer, que é preciso um choque muito grande, uma dor profunda e verdadeira, o sangue derramado em ferimento sério, para quebrar o feitiço e fazer com que a minha verdadeira forma volte. Você disparou para se defender, com medo de ser atacado, e sem saber, me salvou de mim mesmo, me salvou de continuar preso para sempre na pele de um bicho sem alma.
Aproximei-me dele devagar, com muito cuidado, pois ainda sentia um pouco de receio, mas via claramente que ali não havia mais perigo, apenas um homem sofrido e ferido. Ele me olhou com gratidão e me ensinou a reconhecer algumas folhas e ervas medicinais que cresciam ali mesmo, ao nosso redor. Juntos, apanhamos as folhas certas, mastigamos até fazer uma pasta macia e colocamos sobre o corte, tanto para estancar o sangue quanto para aliviar a dor e ajudar na cicatrização.
Quando viu que o sangramento já tinha diminuído muito e que se sentia um pouco mais forte, ele tentou se levantar. Ajudando-se nas árvores, ficou de pé, ainda meio trôpego, mas com um brilho de paz no rosto que eu não tinha visto antes.
— Agora preciso ir — disse ele, olhando para a mata fechada. — Não posso ficar aqui, nem voltar para perto das moradias enquanto essa ferida não sarar e enquanto eu não tiver certeza de que a calma voltou ao meu coração. Mas nunca me esquecerei de você, nem do que fez por mim hoje.
Ele me agradeceu mais uma vez com um aceno de cabeça e um olhar profundo, e depois, com passos lentos mas firmes, adentrou novamente a floresta, desaparecendo entre as árvores como se fosse parte dela mesma.
Nunca mais o vi, nem ouvi falar dele em lugar nenhum. Mas aquela tarde ficou gravada na minha memória e no meu coração para sempre. Naquele dia, eu saí de casa apenas para caçar, como fazia tantas outras vezes. Mas voltei com a espingarda vazia de tiro, sem trazer nenhum animal para comer, mas trazendo comigo uma história incrível, misteriosa e verdadeira: a história de como um homem se transformou numa fera terrível, foi ferido por um caçador que se defendia do ataque, e graças a esse ferimento e à dor que ele causou, conseguiu voltar a ser gente, livre da fúria que o transformava.
Fim