Amanda Andrade Pereira
O Gato dos Olhos Vermelhos
Leitura única
670 palavras · 4 min de leitura
Em uma noite, uma inspetora trabalhou por muito tempo no colégio. Ela era conhecida por quase todos que estudavam ou trabalhavam ali. Quando não estava sentada em sua velha cadeira de madeira, caminhava lentamente pelos corredores, sempre com uma expressão séria e um olhar fechado, como se estivesse observando cada detalhe ao seu redor. Falava pouco, mas quando chamava a atenção de algum aluno, fazia isso de forma fria e grosseira, deixando todos intimidados. Muitos professores também evitavam conversar com ela.
Havia relatos que escutei durante anos dizendo que ela morava sozinha em uma antiga casa de madeira perto do colégio. Diziam que, todas as tardes, podia ser vista sentada em uma cadeira de balanço na varanda, segurando um enorme gato preto de pelos longos e olhos estranhamente vermelhos. Quem passava pela rua comentava que ela mantinha um olhar fixo nas pessoas, como se soubesse algo sobre elas. Poucos tinham coragem de cumprimentá-la.
Na época em que eu era aluno, sempre achei que essas histórias eram apenas invenções para assustar os estudantes. Nunca dei muita importância. Porém, anos depois, já trabalhando como professor naquele mesmo colégio Antônio Lemos, vivi algo que jamais consegui explicar.
Era uma noite fria de junho. Como de costume, fiquei até mais tarde para adiantar correções de provas, organizar trabalhos e lançar notas no sistema. A escola já estava completamente vazia, e o silêncio era tão grande que qualquer pequeno ruído parecia ecoar pelos corredores.
Minha sala ficava no segundo andar, em um longo corredor onde todas as portas permaneciam fechadas. Do lado de fora, o vento soprava forte, fazendo as árvores balançarem e produzindo um som estranho. De vez em quando, uma corrente de ar entrava pelas janelas e espalhava alguns papéis sobre minha mesa. Mesmo assim, continuei trabalhando.
Depois de algum tempo, com a cabeça baixa corrigindo as últimas provas, tive a impressão de ouvir passos no corredor. Pareciam lentos, indo de um lado para o outro. No início pensei que fosse imaginação, mas os sons continuaram. Olhei para o relógio: ainda eram 23h45.
Levantei-me e fui verificar. O corredor estava vazio. Nenhum aluno, nenhum funcionário, apenas uma única cadeira de madeira parada bem no centro do piso.
Naquele instante senti um arrepio percorrer meu corpo. Eu conhecia muito bem aquela escola e sabia que ali nunca existiram cadeiras daquele tipo; todas eram de ferro ou plástico. Mesmo assim, aquela velha cadeira permanecia imóvel, como se sempre tivesse pertencido ao lugar.
Um sentimento de inquietação tomou conta de mim. Recolhi rapidamente as provas, minha caderneta e meus materiais. Apaguei as luzes da sala e caminhei em direção à escada, tentando convencer a mim mesmo de que tudo não passava de cansaço.
Enquanto descia os primeiros degraus, tive uma estranha sensação de que alguém me observava. Parei por alguns segundos. O silêncio era absoluto.
Olhei lentamente para cima.
Lá estava ele.
No final do corredor, imóvel como uma estátua, um enorme gato preto me encarava. Seus pelos eram escuros como a própria noite, mas o que realmente chamava atenção eram seus olhos: duas esferas vermelhas que brilhavam intensamente na escuridão, sem piscar um único instante.
Fiquei completamente paralisado. O animal não emitia nenhum som, apenas mantinha o olhar fixo em mim. Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, tive a impressão de que havia alguém ao lado dele, como uma sombra de uma mulher sentada em uma cadeira de madeira.
Piscar foi suficiente para que tudo desaparecesse.
O corredor voltou a ficar vazio. O gato havia sumido. A cadeira também.
Desci as escadas o mais rápido que consegui e fui embora sem olhar para trás. Até hoje não sei explicar o que vi naquela noite. Alguns dizem que foi apenas fruto do cansaço. Outros acreditam que certas histórias nunca deixam de existir e apenas esperam alguém para prová-las.
Desde então, sempre que passo em frente à antiga casa de madeira perto do colégio, evito olhar para a varanda. Tenho medo de encontrar, mais uma vez, o misterioso gato dos olhos vermelhos me observando em silêncio.
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