Laysse Daniele Moura da Silva
O Assobio da Matinta da Estrada Velha
Leitura única
1206 palavras · 7 min de leitura
Meu avô sempre me disse para nunca pegar atalho pela Estrada Velha de Americano, em Santa Izabel, depois das seis da tarde.
Quando eu era criança, achava aquilo engraçado. Para mim, era apenas mais uma das histórias que os mais velhos contavam para assustar os jovens e impedir que saíssem por aí durante a noite.
— Depois que escurece, aquela estrada não pertence mais aos vivos — ele dizia, olhando sério para a mata.
Eu ria.
Aos dezessete anos, eu trabalhava vendendo açaí na feira. Era jovem, teimoso e achava que nada de ruim poderia acontecer comigo. Naquela sexta-feira, porém, parecia que o próprio céu queria me provar o contrário.
Choveu durante horas.
A água caiu forte sobre Santa Izabel, transformando as ruas em lama e deixando o ar pesado. Quando finalmente terminei o trabalho, já estava ficando tarde. O ônibus que fazia o percurso pela BR-316 havia quebrado, e não havia previsão de outro passar naquela noite.
Olhei para o relógio.
Já estava quase escuro.
Se eu demorasse mais, minha mãe ficaria desesperada. Ou pior: quando eu chegasse em casa, ela mesma faria questão de acabar comigo.
Foi então que tomei a pior decisão da minha vida.
Resolvi pegar o atalho pela Estrada Velha de Americano.
No começo, parecia apenas uma estrada comum. A chuva havia parado, mas tudo estava molhado. A mata dos dois lados parecia mais fechada do que eu lembrava. As árvores se curvavam sobre o caminho, formando uma espécie de túnel escuro.
Não havia ninguém.
Nenhuma casa.
Nenhuma luz.
Apenas o som das gotas caindo das folhas.
E então…
Fiiiiit…
Parei.
Olhei para os lados.
Nada.
Talvez fosse algum pássaro.
Continuei caminhando.
Mais alguns passos.
Fiiiiiiit…
Dessa vez, o assobio pareceu mais próximo.
Meu corpo inteiro gelou.
Lembrei imediatamente das palavras do meu avô:
— Se você ouvir um assobio na mata, não responda. E, principalmente, não procure saber de onde ele veio.
Engoli seco e continuei andando.
Mas o silêncio que veio depois era ainda pior.
Não havia mais barulho de insetos.
Não havia sapos.
Não havia vento.
Era como se toda a mata tivesse prendido a respiração.
Foi quando cheguei à curva do igarapé.
E a vi.
Uma velha estava sentada sobre um tronco caído.
Usava um chapéu de palha rasgado. Os pés descalços estavam cobertos de barro. Suas roupas eram velhas e escuras, e o rosto permanecia quase completamente escondido pela sombra.
Parei.
Ela levantou lentamente a cabeça.
Seus olhos encontraram os meus.
E então falou, com uma voz rouca, arrastada:
— Me dá um pouco de tabaco, meu filho?
Meu coração começou a bater tão forte que pensei que ela pudesse ouvir.
Eu não tinha tabaco.
Nunca carregava aquilo comigo.
— Não tenho, senhora — respondi, tentando parecer calmo.
Ela ficou em silêncio.
Por alguns segundos, não se mexeu.
Depois…
sorriu.
Foi então que vi seus dentes.
Eram negros.
Pretos como carvão.
— Quem não dá pra Matinta… a Matinta leva.
Na mesma hora, uma rajada de vento atravessou a estrada.
As árvores começaram a balançar violentamente.
E tudo ficou escuro.
Não apenas porque a noite havia chegado.
Era uma escuridão diferente.
Pesada.
Viva.
Corri.
Não olhei para trás.
Mas ouvi.
FIIIIIIIIT…
Agora o assobio estava perto.
Perto demais.
Corri ainda mais rápido.
Quando tive coragem de olhar novamente para trás, a velha não estava mais no tronco.
Meu coração parou por um instante.
Então ouvi um bater de asas.
Lento.
Pesado.
Olhei para cima.
E lá estava ela.
Pousada no galho mais alto de uma enorme samaumeira.
Mas já não era mais uma velha.
Era uma criatura gigantesca.
Um pássaro negro, maior do que qualquer ave que eu já tinha visto. Suas penas pareciam absorver a pouca luz que existia. O bico era torto e comprido.
Mas o que mais me assustou foram as pernas.
Não eram pernas de pássaro.
Eram pernas humanas.
Pernas de uma mulher velha.
Magras.
Retorcidas.
Com unhas enormes e escuras.
Era a Matinta Pereira.
Ela abriu as asas.
FIIIIIIIIIT…
O assobio aconteceu tão perto do meu ouvido que eu senti o ar vibrar.
Comecei a correr desesperadamente.
A lama prendia meus pés. Meu chinelo ficou para trás, engolido pelo barro. Os galhos arranhavam meu rosto e meus braços.
Atrás de mim, as asas batiam.
PÁ!
PÁ!
PÁ!
Cada vez mais perto.
Eu podia ouvir os galhos quebrando.
Podia sentir alguma coisa passando entre as árvores.
Mas não importava quanto eu corresse…
eu continuava no mesmo lugar.
Passei por uma árvore caída.
Depois por uma pedra.
Depois por uma placa enferrujada.
Continuei correndo.
E, alguns minutos depois…
passei novamente pela mesma árvore caída.
Meu sangue gelou.
Eu estava correndo em círculos.
A Estrada Velha não queria me deixar sair.
Foi então que, ao longe, avistei uma luz fraca.
Corri em direção a ela.
Quando me aproximei, reconheci o lugar.
Era o Cemitério Velho de Santa Izabel.
Não pensei duas vezes.
Pulei o muro.
Caí do outro lado e me escondi atrás de um túmulo grande, tentando controlar minha respiração.
Tudo estava silencioso novamente.
Silencioso demais.
Então ouvi algo pousando.
Levantei lentamente os olhos.
A Matinta estava sobre uma cruz.
Suas enormes asas estavam abertas.
Ela parecia procurar alguma coisa.
Parecia…
me procurar.
Fiquei imóvel.
Não respirava.
Não fazia nenhum movimento.
Então ela começou a cantar.
Mas não era um canto de pássaro.
Era uma voz humana.
Uma cantoria triste.
Lenta.
Parecida com aquelas músicas que se ouvem em velórios.
E, de repente…
outra voz respondeu.
Depois outra.
E outra.
As cruzes ao redor começaram a responder ao canto.
O cemitério inteiro parecia cantar.
Fechei os olhos.
Naquele momento, lembrei de tudo o que minha avó havia me ensinado. Rezei baixinho. Rezei como nunca havia rezado antes.
Não sei quanto tempo passou.
Minutos.
Horas.
Talvez uma eternidade.
Quando finalmente abri os olhos…
ela havia desaparecido.
No chão, sobre a terra molhada, havia apenas algumas penas pretas.
E um cheiro forte.
Um cheiro horrível.
Cheiro de tabaco velho.
Tabaco podre.
Corri dali e não parei até chegar em casa.
Quando entrei, já era madrugada.
Minha mãe estava chorando.
Disse que havia passado a noite inteira procurando por mim.
Meu avô estava sentado em silêncio.
Quando me viu, não perguntou onde eu tinha estado.
Apenas olhou para os meus pés sujos de lama.
Depois para os arranhões nos meus braços.
E disse:
— Eu avisei para você não pegar aquela estrada.
Fui tomar banho.
Foi então que percebi.
No meu tornozelo havia três riscos profundos.
Três marcas compridas.
Como se unhas enormes tivessem me agarrado.
Não doíam.
Mas não paravam de sangrar.
Meu avô ficou pálido quando viu.
— Ela te marcou…
Naquela noite, ninguém dormiu.
Desde então, nunca mais passei pela Estrada Velha depois que escureceu.
Mas há uma coisa que nunca contei para ninguém.
As marcas ainda estão no meu tornozelo.
E, em todas as noites de lua cheia, exatamente às três horas da manhã, eu acordo.
Primeiro, sinto o cheiro.
Tabaco velho.
Depois, o vento começa a bater na janela.
E então…
bem longe…
eu escuto:
Fiiiiiiit…
Silêncio.
Depois, mais perto:
FIIIIIIIT…
E eu sei que ela ainda está procurando por mim.
Porque dizem que, quando a Matinta Pereira marca alguém…
ela nunca esquece.
E uma noite…
mais cedo ou mais tarde…
ela volta para buscar aquilo que acreditava ser dela.
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