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Não Abra os OlhosLeitura · 6 min

Ana Gabriele

Não Abra os Olhos

01

Capítulo 1

1024 palavras · 6 min de leitura

Eu sempre fui a única.

Não a única filha. Não a única cristã da família. Não a única a participar dos cultos ou das reuniões de oração. Eu era a única que nunca via nada.

Meus pais eram pastores há anos, e eu cresci ouvindo histórias que pareciam saídas de filmes de terror. Pessoas que ouviam vozes em casas vazias, acordavam com marcas estranhas pelo corpo ou relatavam presenças inexplicáveis. Minha mãe já havia contado diversas experiências espirituais que viveu. Meu pai também. Outros parentes possuíam histórias semelhantes. Eu, porém, nunca tinha visto um vulto, ouvido uma voz ou sentido um arrepio sem explicação. Nada.

Por isso, quando meus pais comentaram sobre uma visita de oração que fariam após um culto, resolvi acompanhá-los. A justificativa que dei foi simples: queria passar mais tempo com eles. Mas a verdade era outra. No fundo, bem no fundo, eu queria ver alguma coisa, mesmo que jamais admitisse.

A instituição ficava afastada do centro da cidade. Era antiga, cercada por árvores altas e por um silêncio que parecia engolir qualquer som.

Os caseiros moravam em uma casa dentro do terreno e, segundo eles, a tranquilidade havia desaparecido havia muito tempo. Relatavam ouvir sussurros, ver vultos atravessando corredores e sentir constantemente que estavam sendo observados.

Quando entramos no carro após o culto, tentei agir normalmente. Conversei, ri e mexi no celular. Mas toda vez que alguém mencionava os acontecimentos da casa, meu estômago se contraía. A viagem durou pouco, mas eu me lembro perfeitamente do momento em que atravessamos o portão principal.

Foi instantâneo.

Era como entrar em outro lugar. Em outro mundo.

O ambiente mudou. O ar parecia mais pesado, mais frio, mais denso. As conversas dentro do carro diminuíram naturalmente, sem motivo aparente, até serem substituídas por um silêncio estranho. Não era apenas a ausência de som. Era algo pior. Parecia que o próprio lugar estava prendendo a respiração.

Observei as árvores pela janela. Não havia vento. Não havia pássaros. Não havia nada.

Apenas quietude.

Quietude demais.

Os caseiros nos receberam com simpatia. Conversamos por alguns minutos na sala, tomamos café e falamos sobre assuntos comuns. Mesmo assim, eu não conseguia relaxar. Algo estava errado. Eu sentia isso. Era como estar sendo observada por alguém escondido atrás de mim. Sempre que eu olhava para trás, não havia ninguém. Quando voltava a olhar para frente, a sensação retornava.

Tentei me convencer de que era apenas nervosismo. Afinal, eu já conhecia todas aquelas histórias. Minha mente provavelmente estava pregando peças. Era a explicação mais lógica, ou pelo menos a que eu queria acreditar.

Pouco depois, iniciamos a oração. Formamos um círculo no centro da sala de estar. Minha posição ficou exatamente de frente para a porta da cozinha. A luz daquele cômodo estava apagada, e tudo o que eu conseguia enxergar era escuridão.

Fechamos os olhos e a oração começou.

As vozes eram baixas no início, mas, conforme os minutos passavam, ganhavam intensidade. As palavras se tornavam mais fortes, as vozes se sobrepunham e o ambiente parecia vibrar ao nosso redor. Eu tentava me concentrar, tentava acompanhar, mas meus pés já doíam por permanecer tanto tempo em pé.

Minha atenção começou a se dispersar.

Então comecei a pensar.

Será que eu realmente nunca veria nada?

Será que todos tinham experiências sobrenaturais, menos eu?

Será que existia algo para ser visto?

A curiosidade cresceu silenciosamente dentro de mim.

Até que eu abri os olhos.

Primeiro olhei para o teto.

Nada.

Depois para as paredes.

Nada.

Olhei discretamente para os lados.

Nada.

Então meus olhos encontraram a cozinha.

E tudo mudou.

Debaixo da mesa, imóvel, havia algo observando.

Meu coração simplesmente esqueceu como bater.

Não era um cachorro

Também não era um lobo.

Era algo maior. Muito maior.

A criatura permanecia imóvel na escuridão. Sua pelagem era negra, mas não apenas negra. Parecia absorver a luz ao redor, como se fosse feita da própria sombra. Como se um fragmento da noite tivesse tomado forma.

E os olhos...

Meu Deus, os olhos.

Os olhos brilhavam em vermelho intenso.

Como brasas acesas.

Como fogo vivo.

Foi então que ele me encarou.

Diretamente.

Sem desviar.

Sem hesitar.

Sem medo.

Naquele instante eu soube.

Aquilo também estava me observando.

Talvez desde o momento em que eu havia chegado.

Talvez desde antes.

O tempo pareceu parar.

Não sei se foram segundos ou minutos. Só sei que não conseguia respirar, falar ou me mover.

Então a criatura correu.

Tudo aconteceu rápido demais.

Ela disparou para fora da escuridão, passando por baixo da mesa. As cadeiras foram empurradas violentamente.

Clac!

Clac!

Clac!

O som ecoou pela cozinha.

Alto. Muito alto.

Eu ouvi perfeitamente.

Vi perfeitamente.

Mas ninguém reagiu.

Ninguém.

A oração continuou normalmente.

As vozes continuaram ecoando pela sala.

Era como se o barulho nunca tivesse existido.

A criatura correu em direção a uma porta fechada.

E desapareceu.

Simplesmente desapareceu.

Sem abrir a porta.

Sem deixar rastros.

Sem qualquer explicação.

Ela apenas deixou de existir.

Como fumaça.

Como sombra.

Como um pesadelo.

Fiquei imóvel. Completamente imóvel.

Meu corpo permanecia ali, mas minha mente parecia distante. Passei o restante da oração olhando para a cozinha vazia, esperando que aquilo voltasse. Esperando ouvir outro som. Esperando enxergar novamente aqueles olhos.

Mas nada aconteceu.

Quando a oração terminou, eu estava pálida. Minhas mãos tremiam.

A primeira coisa que fiz foi contar tudo.

Absolutamente tudo.

O silêncio tomou conta da sala. Meus pais me ouviram atentamente. Os caseiros também. Os demais presentes trocaram olhares inquietos.

Então começaram os relatos.

Uma pessoa disse ter sentido alguém parado atrás dela durante toda a oração.

Outra afirmou ter ouvido uma voz sussurrando próximo ao ouvido.

Uma mulher contou que teve a impressão de ver algo observando pela janela.

Outro relatou uma sensação esmagadora de medo sem qualquer motivo aparente.

Mas ninguém viu a criatura.

Ninguém ouviu as cadeiras.

Apenas eu.

A única.

A única que passou a vida inteira sem enxergar nada.

A única que finalmente viu.

E talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido esquecer aqueles olhos.

Às vezes ainda sonho com eles.

Olhos vermelhos.

Imóveis.

Me observando da escuridão.

Esperando.

Como se soubessem que, um dia, eu abriria os olhos novamente.

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