Nivea Rainara Caxias Jaques
A Visagem da Estrada do Piquiazeiro
Leitura Ășnica
485 palavras · 3 min de leitura
Meu nome Ă© Nivea Rainara, e essa histĂłria aconteceu com o meu avĂŽ, JoĂŁo Portilho, muitos anos atrĂĄs, em uma pequena vila cercada por mata, silĂȘncio e estradas escuras. AtĂ© hoje, quando ele conta essa histĂłria, seus olhos mudam⊠como se ainda sentisse medo daquela noite.
Era uma noite de reza na casa da dona Izabel. As pessoas estavam reunidas, rezando baixinho, enquanto o vento fazia as årvores balançarem do lado de fora. A reza terminou por volta das dez da noite. O céu estava sem lua, e a estrada parecia mais escura do que o normal.
Os amigos do meu avÎ começaram a brincar com ele:
â Boca, vai lĂĄ no seu finado Defonso buscar dois litros de cortesana pra gente! Meu avĂŽ era conhecido como Boca. Mesmo sem vontade, ele pegou a bicicleta e foi.
A estrada era longa e silenciosa. SĂł dava pra ouvir o barulho dos pneus passando pela terra e os grilos cantando no mato. Quando chegou na casa do finado Defonso, ele chamou:
â Ă de casa! Ă Defonso!
LĂĄ de dentro, uma voz respondeu desconfiada:
â Quem Ă©?
â Ă o Boca!
EntĂŁo o homem respondeu:
â SĂł vou abrir a janela porque Ă© tu. Se fosse outra pessoa, eu nĂŁo abria. Meu avĂŽ sentiu um arrepio, mas fingiu nĂŁo ligar.
â O que tu quer?
â Dois litros de cortesana.
O homem entregou as garrafas pela janela. Meu avÎ pagou e saiu råpido dali. Com medo das garrafas quebrarem, pendurou elas no guidom da bicicleta e começou a voltar.
Mas quando chegou perto do pé de piquiazeiro, tudo mudou. A bicicleta ficou pesada.
Tão pesada que parecia que alguém tinha sentado na garupa.
Meu avÎ pensou que o pneu tinha furado. Desceu da bicicleta, apertou os pneus⊠estavam duros.
â Ăgua, que diacho Ă© isso⊠â murmurou.
Ele subiu novamente na bicicleta e pedalou mais alguns metros. Foi então que sentiu. Uma força empurrou a bicicleta para baixo.
Como se alguma coisa invisĂvel tivesse sentado atrĂĄs dele.
O vento ficou gelado. O mato ficou em silĂȘncio. Nem os grilos cantavam mais.
Meu avĂŽ começou a pedalar mais rĂĄpido, sentindo o suor escorrer pelo rosto. Quando chegou perto da casa do seu Pipira, onde havia um tronco velho caĂdo na estrada, aconteceu de novo.
Um empurrĂŁo forte.
TĂŁo forte que a bicicleta quase saiu desgovernada.
Se nĂŁo tivesse apertado o freio a tempo, teria passado direto da entrada da casa da dona Izabel.
Ele chegou lå pålido, cansado e banhado de suor. Os amigos começaram a rir:
â O que foi, Boca? Tava tomando banho lĂĄ no Defonso? Mas meu avĂŽ nĂŁo ria.
Respirando pesado, ele respondeu:
â Rapaz⊠eu nĂŁo sei que diacho era aquilo⊠sĂł sei que vinha alguĂ©m na garupa
comigo.
Naquela noite, ninguém teve coragem de voltar sozinho para casa.
E meu avĂŽ fez uma promessa: Nunca mais andaria de bicicleta sozinho naquela
estrada durante a noite.
E até hoje⊠ele nunca mais foi.
Fim