A Senhora na Última CasaLeitura · 5 min

Andressa Rafaely Faro de Oliveira

A Senhora na Última Casa

01

Leitura única

913 palavras · 5 min de leitura

Beco Sem Saída

Antigamente, quando eu tinha sete anos de idade, morava em um beco sem saída, em Santa Izabel do Pará. Era uma rua simples, feita de barro, com algumas casas espalhadas e muito mato ao redor. Durante o inverno, a lama tomava conta do caminho, e à noite quase não existia iluminação.

No final daquele beco havia uma casa que chamava a atenção de todo mundo.

Era uma casa antiga, toda feita de madeira, cercada por tábuas velhas e desgastadas pelo tempo. Na frente havia algumas árvores que deixavam o lugar sempre escuro, mesmo durante o dia.

Nessa casa morava uma senhora.

Ela devia ter por volta de cinquenta anos, mas para uma criança parecia muito mais velha. Era corcunda, andava devagar e quase nunca conversava com ninguém.

Ela morava sozinha.

Ou pelo menos era o que todos pensavam.

A única companhia que tinha era um cachorro preto, muito bravo, que não deixava ninguém chegar perto do portão. Bastava alguém passar olhando para a casa que o animal começava a latir.

Quando eu era criança, costumava brincar com meus primos naquele beco. Corríamos pela rua de barro, inventávamos brincadeiras e passávamos a tarde inteira do lado de fora.

Mas existia uma regra que ninguém precisava dizer.

Quando chegava a boca da noite, por volta das cinco horas da tarde, todos nós corríamos para dentro de casa.

Ninguém queria ficar na rua depois daquele horário.

O motivo era a senhora da última casa.

O mais estranho é que os adultos não tinham medo dela.

Pelo contrário.

Os vizinhos diziam que ela era uma senhora simpática, educada e sempre cumprimentava quem passava em frente à sua casa. Alguns até paravam para conversar, e ela respondia com um sorriso tranquilo.

Mas com as crianças era diferente.

Eu e meus primos sentíamos isso.

Toda vez que passávamos perto da última casa do beco, ela interrompia o que estava fazendo e nos encarava.

Não sorria.

Seu rosto ficava sério.

O olhar parecia carregado de desdém e raiva, como se não gostasse da nossa presença.

Às vezes estávamos brincando e, quando olhávamos para a varanda, ela estava lá, sentada em sua velha cadeira de madeira, fumando o cachimbo e olhando diretamente para nós.

Nenhum de nós tinha coragem de sustentar aquele olhar por muito tempo.

Bastava perceber que ela nos observava para largarmos a brincadeira e corrermos para dentro de casa.

O mais curioso é que, quando algum adulto aparecia, ela mudava completamente.

Voltava a sorrir, conversava normalmente e parecia apenas uma senhora comum.

Por isso, muitos diziam que nós éramos apenas crianças impressionáveis.

Mas até hoje eu me pergunto, será que ela só não gostava de crianças. Por que ela era tão diferente conosco?

Aquela senhora era muito conhecida no beco.

Não porque fosse simpática.

Mas porque todas as noites ela permanecia sentada em sua cadeira, fumando um cachimbo, enquanto a fumaça desaparecia na escuridão.

Ninguém sabia o que ela observava.

Minha tia costumava contar histórias sobre ela.

Dizia que, durante as madrugadas, via aquela senhora andando pelo beco.

Segundo a vizinhança, sempre ouviam batidas nas portas.

Arranhões nas janelas.

E assobios que ecoavam pela rua inteira.

Ela sempre dizia que isso acontecia depois da meia-noite e só terminava perto das três horas da manhã.

Quando eu era criança, morria de medo dessas histórias.

Mas o mais estranho é que as madrugadas naquele beco realmente eram diferentes.

Até umas cinco horas da manhã era possível ouvir muitos barulhos.

Às vezes pareciam passos.

Outras vezes pareciam arranhões.

Havia noites em que alguém jurava ouvir batidas nas portas.

Também existiam os assobios.

Longos.

Distantes.

E ninguém nunca descobria de onde vinham.

Os adultos tentavam explicar dizendo que era o vento ou algum animal.

Mas as crianças acreditavam em outra coisa.

Eu mesmo, muitas vezes, olhava pela janela e via a velha sentada em sua cadeira, fumando o cachimbo e encarando a escuridão.

Ela quase não se mexia.

Parecia estar esperando alguma coisa.

Ou alguém.

Algum tempo depois, o cachorro preto morreu.

Os moradores comentaram o assunto por alguns dias e logo esqueceram.

Mas a velha nunca mais foi vista acompanhada de nenhum animal.

Ela continuava sentada na mesma cadeira, sozinha, olhando para o beco.

Pouco tempo depois, a notícia se espalhou.

A senhora da última casa também havia falecido.

Depois do enterro, a velha casa ficou vazia.

A cadeira nunca mais apareceu na varanda.

E, estranhamente, as coisas esquisitas também deixaram de acontecer.

As batidas fortes nas portas acabaram.

Os arranhões que deixavam marcas nas janelas desapareceram.

Os assobios medonhos nunca mais foram ouvidos.

As madrugadas voltaram a ser silenciosas.

Como se tudo aquilo tivesse ido embora junto com a dona da casa.

Foi então que surgiu uma lenda entre os moradores.

Alguns diziam que aquela senhora era apenas uma mulher solitária, vítima das histórias criadas pela vizinhança.

Outros acreditavam que ela escondia um segredo muito maior.

Até hoje, algumas pessoas juram que ela era a própria Curupira disfarçada.

Outras acham que ela apenas convivia com alguma coisa que andava por aquele beco escuro durante as madrugadas.

Ninguém jamais encontrou uma prova.

Só ficaram as lembranças.

Os barulhos.

Os assobios.

As batidas nas portas.

E a imagem daquela velha corcunda, sentada em sua cadeira, fumando um cachimbo e olhando para o nada.

Talvez ela fosse apenas uma senhora estranha.

Talvez fosse a guardiã de algum segredo.

Ou talvez existisse outra coisa andando naquele beco, e ela fosse a única capaz de enxergá-la.

Até hoje, ninguém sabe a resposta.