Alícia Naiely dos Santos Pedro
A Matinta do São Raimundo
Leitura única
650 palavras · 4 min de leitura
Isso aconteceu há mais ou menos cinco anos, no bairro São Raimundo, em Santa Isabel do Pará. Ela nunca foi de acreditar muito em histórias de assombração, dessas que os mais velhos contam nas portas de casa quando a noite chega. Mas depois daquela noite, sua opinião mudou completamente.
Era uma sexta-feira. Ela tinha passado a tarde conversando com algumas amigas e chegou em casa já perto das sete da noite. O céu estava escuro, carregado de nuvens, e um vento estranho sobrava pelas ruas do bairro. Sua mãe preparava o jantar enquanto ela assistia televisão na sala.
Por volta das dez horas, a energia acabou.
Não era algo incomum naquela época, mas naquela noite tudo parecia diferente. O silêncio tomou conta da rua. Sem televisão, sem música, sem o barulho dos ventiladores. Só o som do vento batendo nas árvores.
Foi então que ela ouviu um grito. Era um som fino e distante.
— Aaaaaah... Aaaaaah...
Pensou que fosse alguém voltando para casa. Ignorou e continuou sentada na varanda esperando a energia voltar. Alguns minutos depois, o grito surgiu novamente, mas parecia bem mais próximo.
— Aaaaaah... Aaaaaah...
Ela sentiu um arrepio gelado percorrer suas costas. Lembrou imediatamente das histórias da Matinta Pereira que sua avó costumava contar. Segundo ela, quando o grito se aproxima durante a noite, é melhor não responder e nem abrir a porta para ninguém.
Tentou rir da situação, dizendo para si mesma que era apenas imaginação da sua cabeça. Mas o grito continuou. Cada vez mais perto. Cada vez mais alto.
A rua estava completamente vazia. Nenhum vizinho do lado de fora. Nenhum cachorro latindo. Era como se o mundo inteiro tivesse parado de repente.
De repente, ela ouviu um barulho estranho vindo do quintal... algo andando sobre as folhas secas. Passos lentos e pesados.
Cruuush... Cruuush...
Seu coração começou a bater tão forte que parecia que ia sair pelo peito. Correu para dentro de casa e fechou a porta num baque só. Sua mãe percebeu seu nervosismo na hora e perguntou o que estava acontecendo. Antes que ela pudesse responder, o grito ecoou novamente, agora tão perto que parecia vir direto da janela da sala.
— Aaaaaah... Aaaaaah...
Sua mãe ficou pálida instantaneamente.
— Não olha lá fora — ela disse, com a voz num sussurro tenso.
As duas ficaram completamente em silêncio, quase sem respirar. Foi quando veio uma batida seca na porta.
TOC. TOC. TOC.
Ninguém ousou se mexer. A batida aconteceu de novo, só que muito mais forte.
TOC! TOC! TOC!
Ela podia sentir suas mãos tremendo descontroladamente. Sua mãe segurou firme o seu braço e fez sinal com o dedo na boca para que permanecesse absolutamente quieta.
Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, uma voz de mulher falou do lado de fora:
— Me dá um pouco de café amanhã...
O sangue delas gelou na hora. Era exatamente como diziam as velhas histórias. A voz parecia cansada, velha, rouca e muito estranha. Ninguém respondeu. O silêncio pesado voltou a tomar conta de tudo.
Os minutos passavam lentamente no escuro. Quando a energia finalmente retornou, trazendo a luz de volta, elas criaram coragem para espiar pela fresta da janela. Não havia ninguém. A rua estava totalmente deserta.
Na manhã seguinte, logo cedo, sua mãe encontrou algo bem perto do portão da frente: um pequeno monte de penas pretas espalhadas pelo chão. Nenhuma galinha dos vizinhos havia desaparecido e ninguém no bairro soube explicar de onde aquelas penas vieram.
Até hoje, quando ela passa por aquela rua durante a noite e o vento começa a soprar mais forte, a lembrança daquele grito volta nítida. E, às vezes, quando tudo fica silencioso demais na casa, ela ainda tem a nítida impressão de ouvir, bem lá longe:
— Aaaaaah... Aaaaaah...
E, nesse mesmo momento, ela entra em casa e tranca a porta imediatamente. Afinal, algumas histórias do folclore paraense são muito mais reais do que muita gente imagina.
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