Bruna Gabriele Santos da Costa
A Loira do Reluz
Leitura única
806 palavras · 5 min de leitura
Era o ano de 2010. Em Santa Izabel do Pará, o bairro do Juazeiro estava movimentado naquela noite. O famoso Reluz Club promovia uma grande festa que atraía gente de vários bairros da cidade e até de municípios vizinhos. As luzes coloridas iluminavam a entrada do clube, o som das aparelhagens ecoava pelas ruas e centenas de pessoas dançavam sem imaginar que uma história nasceria naquela madrugada.
Já passava das três da manhã quando a festa começou a esvaziar. Muitos procuravam moto táxis para voltar para casa. O céu estava encoberto por nuvens escuras, e uma névoa fina parecia cobrir algumas ruas da cidade. O vento soprava devagar, levantando poeira e folhas secas.
Foi então que alguns frequentadores perceberam uma mulher parada próxima ao portão do clube.
Ela era diferente de todas as outras pessoas que estavam ali.
Tinha cabelos extremamente loiros, longos e lisos, que brilhavam sob a luz dos postes. Vestia um vestido branco justo, elegante, que contrastava com a escuridão da madrugada. Sua pele era muito clara, quase pálida, e seus olhos pareciam refletir uma luz estranha.
Ninguém sabia quem ela era.
Alguns rapazes tentaram puxar conversa, mas ela não respondeu. Apenas observava a rua, como se estivesse esperando alguém.
Pouco depois, um moto taxista que trabalhava naquela área aproximou-se.
— Vai pra onde, moça? — perguntou.
Ela respondeu com uma voz suave:
— Me leva para trás do Doracy Leal.
O homem estranhou. O local era pouco movimentado naquele horário. Mesmo assim, como precisava ganhar dinheiro, concordou.
A mulher subiu na moto.
Durante todo o trajeto, ela permaneceu em silêncio.
O moto taxista começou a sentir um frio incomum. Apesar do calor típico da região, parecia que a temperatura havia caído repentinamente. Ele chegou a olhar pelo retrovisor algumas vezes.
Em uma delas, teve a impressão de que os olhos da passageira estavam diferentes.
Mais brilhantes.
Mais escuros.
Mas pensou que fosse apenas cansaço.
Quando chegaram à rua indicada, o local estava completamente vazio. Não havia casas com luzes acesas. Apenas o som distante dos insetos e o vento passando pelas árvores.
A mulher desceu da motocicleta.
O moto taxista desligou o motor.
— Ficou vinte reais, moça.
Ela sorriu.
Era um sorriso bonito, mas ao mesmo tempo estranho.
— Você não prefere outra forma de pagamento?
O homem ficou sem entender.
A mulher aproximou-se.
Seu perfume tinha um cheiro forte de flores, mas havia algo diferente, quase como o cheiro da terra molhada depois da chuva.
— Não — respondeu ele. — Sou casado. Só quero receber minha corrida.
O sorriso desapareceu.
A expressão dela mudou completamente.
Os olhos ficaram fixos nele.
Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da rua.
Então ela falou em um tom frio:
— Tem certeza?
O homem começou a sentir medo.
Algo não parecia normal.
Ele insistiu:
— Quero só meu dinheiro.
A mulher deu alguns passos para trás.
Foi nesse momento que aconteceu.
Seu corpo começou a se contorcer de forma impossível.
Os cabelos se agitaram sem que houvesse vento.
Os braços pareciam alongar-se.
O vestido branco rasgava à medida que sua forma mudava.
O moto taxista observava paralisado.
Então surgiu algo atrás dela.
Primeiro uma sombra.
Depois uma enorme cauda coberta por escamas escuras.
A criatura crescia cada vez mais.
Os olhos agora brilhavam como brasas.
A pele adquiria manchas estranhas.
Seu rosto deixava de parecer humano.
O homem sentiu o coração disparar.
Tentou ligar a motocicleta.
Na primeira tentativa, o motor não pegou.
A criatura avançou mais alguns metros.
Um som semelhante a um assobio misturado com um rosnado ecoou pela rua.
Na segunda tentativa, a moto funcionou.
Sem pensar duas vezes, ele acelerou com toda a força.
Enquanto fugia, ouviu um grito agudo atrás de si.
Alguns dizem que ele olhou rapidamente pelo retrovisor.
E o que viu o perseguiu pelo resto da vida.
A mulher já não existia.
No lugar dela havia uma criatura gigantesca, metade mulher, metade serpente.
Outros contam que ele jamais revelou exatamente o que viu naquela última olhada.
Apenas repetia:
— Não era gente.
Quando chegou em casa, estava tremendo.
Sua esposa contou que ele parecia ter visto a própria morte.
Durante dias, recusou-se a trabalhar à noite.
Meses depois, algumas pessoas afirmaram ter visto uma mulher loira caminhando sozinha em ruas próximas ao antigo Reluz Club.
Sempre usando branco.
Sempre aparecendo depois da meia-noite.
E sempre desaparecendo sem deixar rastros.
Foi assim que nasceu a lenda da Loira do Reluz.
Até hoje, há quem diga que, nas madrugadas silenciosas de Santa Izabel do Pará, ela ainda procura alguém disposto a aceitar sua carona final. Quem a encontra e resiste aos seus encantos pode acabar descobrindo a verdadeira forma da criatura que se esconde por trás do rosto da bela mulher de branco.
Essa versão é uma narrativa folclórica e de terror baseada na história que você contou, enriquecida com detalhes típicos das lendas urbanas transmitidas oralmente.