Dafne Santana de Souza
A Lenda da Matinta de Areia Branca
Leitura única
896 palavras · 5 min de leitura
Há muito tempo, em uma pequena comunidade cercada por uma grande floresta, vivia uma senhora muito misteriosa. Ela morava sozinha em uma casa simples, afastada das outras casas, perto de um caminho de terra que levava até a mata. Durante o dia, quase ninguém dava muita importância àquela senhora. Ela era quieta, observava tudo pela janela e raramente conversava com os moradores.
Porém, quando a noite chegava, principalmente nas noites mais escuras e silenciosas, coisas estranhas começavam a acontecer.
Os moradores costumavam ouvir um assobio muito forte vindo da floresta. Não era um assobio comum. Era agudo, comprido e assustador, e parecia se aproximar cada vez mais das casas.
— Fiiiiiiiiiiu... fiuuuuuu...
Quando alguém ouvia aquele som, já sabia que era melhor fechar as portas e janelas.
As pessoas mais velhas da comunidade diziam que aquele assobio pertencia à Matinta Perera, uma criatura de uma antiga lenda amazônica. Segundo a história contada pelos moradores, a Matinta poderia aparecer durante a noite na forma de uma mulher ou de uma velha misteriosa, mas também poderia se transformar em um pássaro de aparência assustadora.
Ninguém sabia ao certo se aquilo era verdade. Mesmo assim, todos tinham medo.
Certa noite, uma menina chamada Ana voltava para casa depois de visitar sua avó. Ela caminhava rapidamente pela estrada de terra, segurando uma pequena lanterna. O céu estava muito escuro e as árvores da floresta balançavam com o vento.
De repente, Ana ouviu um assobio.
— Fiiiiiiiiiiu...
Ela parou imediatamente.
Olhou para trás, mas não viu ninguém.
Continuou andando.
Poucos segundos depois, ouviu novamente.
— Fiiiiiiiiiiu...
Dessa vez, o som parecia muito mais perto.
Ana apertou a lanterna contra o peito e começou a caminhar mais rápido. Seu coração batia forte. Ela lembrava das histórias que sua avó contava sobre a Matinta e começou a imaginar que talvez a lenda fosse verdadeira.
Foi então que ouviu um barulho vindo das árvores.
Crac!
Um galho havia quebrado.
Ana iluminou o local com a lanterna, mas não encontrou nada.
— Tem alguém aí? — perguntou, tentando parecer corajosa.
Ninguém respondeu.
Ela continuou seu caminho até perceber uma sombra passando rapidamente entre as árvores. Ana ficou assustada e correu.
Quando finalmente chegou perto de casa, bateu na porta com força.
— Mãe! Abre a porta!
Sua mãe abriu rapidamente e perguntou:
— O que aconteceu?
Ana entrou correndo e contou tudo o que havia ouvido e visto. Sua mãe ficou séria.
— Você ouviu um assobio?
Ana confirmou com a cabeça.
A mãe fechou a porta e olhou pela janela.
— Então não saia mais de casa sozinha à noite.
Naquela mesma noite, o assobio voltou a ser ouvido por toda a comunidade.
— Fiiiiiiiiiiu...
Os cachorros começaram a latir. Algumas pessoas acenderam as luzes das casas. Outras fecharam as janelas.
Mas uma coisa estranha aconteceu.
O assobio parou exatamente em frente à casa da senhora misteriosa que vivia perto da floresta.
No dia seguinte, os moradores perceberam que ela havia desaparecido.
A casa estava vazia.
Ninguém sabia para onde ela tinha ido.
Algumas pessoas começaram a dizer que aquela senhora era a própria Matinta. Outros diziam que tudo não passava de uma coincidência. Mesmo assim, ninguém teve coragem de entrar na casa.
Os dias passaram, e a comunidade voltou a ficar tranquila.
Até que, certa noite, um morador chamado João decidiu sair para procurar lenha na floresta. Ele não acreditava nas histórias sobre a Matinta e dizia que tudo era apenas medo criado pelas pessoas.
Enquanto caminhava pela mata, João ouviu o famoso assobio.
— Fiiiiiiiiiiu...
Ele parou e sorriu.
— Então é você que está assustando todo mundo?
O assobio veio novamente.
— Fiiiiiiiiiiu...
João seguiu o som.
Quanto mais caminhava, mais escura ficava a floresta. Até que chegou a uma clareira. No meio dela havia uma árvore enorme.
Sobre um dos galhos, João viu uma figura estranha.
Parecia um pássaro grande, mas seus olhos brilhavam na escuridão.
João ficou sem palavras.
A criatura abriu as asas e soltou um assobio tão forte que ele precisou tapar os ouvidos.
Naquele momento, João finalmente acreditou nas histórias.
Ele correu de volta para a comunidade e nunca mais zombou das pessoas que acreditavam na lenda.
Depois daquela noite, os moradores passaram a respeitar ainda mais a floresta. Eles diziam que a Matinta não aparecia simplesmente para assustar as pessoas. Para muitos, ela era uma figura ligada aos mistérios da natureza e às antigas histórias transmitidas de geração em geração.
Ana nunca esqueceu o que aconteceu naquela noite. Anos depois, ela ainda contava a história para as crianças da comunidade.
Sempre que alguém perguntava se a Matinta realmente existia, Ana respondia:
— Eu não sei se vocês vão acreditar, mas eu ouvi o assobio com meus próprios ouvidos.
E, segundo os moradores, até hoje, quando a noite fica muito silenciosa e o vento passa pelas árvores da floresta, é possível ouvir um assobio distante:
— Fiiiiiiiiiiu...
Por isso, quando a noite chega e o misterioso som aparece no meio da mata, ninguém se atreve a sair para descobrir de onde ele veio.
A lenda da Matinta continua sendo contada até hoje, passando de avós para pais e de pais para filhos, mantendo viva uma das histórias mais misteriosas do folclore amazônico.
E talvez seja justamente por isso que, em algumas noites, quando tudo parece estar em silêncio, as pessoas ainda olham para a janela e pensam:
“Será que é apenas um pássaro... ou será que a Matinta está por perto?”
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