Noeli Cristina Silva da Silva
A Estrada dos Três Marcos
Leitura única
851 palavras · 5 min de leitura
Na terra onde os igarapés cortam a floresta como fios de prata, e os troncos das árvores parecem guardar segredos mais antigos que o próprio tempo, fica Santa Isabel. Os mais velhos dizem que há uma estrada que não existe nos mapas — a Estrada dos Três Marcos. Ela aparece para quem anda só, quando o sol já se afogou no rio e a lua ainda não subiu. Não se sabe quem a construiu, nem para onde leva. O que se sabe é que quem entra, nem sempre volta.
Era uma noite de março, quando a chuva cai fina e incessante, que Zé Tião voltava de bicicleta da vila. Trazia uma trouxa de roupas e o pensamento na sopa quente que a mulher preparava. Conhecia cada curva, cada buraco do caminho — mas naquela noite, algo estava diferente. A estrada, que devia ser curta, parecia se estender sem fim. As árvores dos dois lados se aproximavam, como se quisessem fechar o caminho. E então, ele viu: três cruzes de madeira, enfileiradas à beira do caminho, onde nunca havia tido nada.
O coração dele bateu mais forte. Lembrou-se da avó, que dizia: “Quando as cruzes aparecerem sem que ninguém as colocasse, não pare. Não olhe para trás. Não responda ao que te chama.” Ele apertou o guidão e pedalou mais rápido. Mas as cruzes não ficaram para trás — continuavam ali, do mesmo tamanho, na mesma distância, como se a estrada não avançasse. E o pior: entre as cruzes, viu uma figura alta, magra, vestida de branco, parada imóvel. Não tinha rosto — só uma mancha escura onde devia estar o rosto.
— Zé Tião… — chamou uma voz. Não vinha de fora. Vinha de dentro da cabeça dele, suave e fria, como água de igarapé à meia-noite. — Vem descansar… a estrada é longa… e a casa está longe…
Ele sentiu um arrepio que não era de frio. Algo puxou a ponta da camisa, leve, mas firme, como uma mão invisível. A bicicleta pesou de repente, como se alguém tivesse sentado na garupa. Os pés pedalavam, mas a roda não girava — estava no mesmo lugar, no mesmo ponto, diante das três cruzes e da figura sem rosto.
— Quem é você? — gritou, mas a voz saiu fraca, engolida pela chuva. — O que quer de mim?
— O que todos querem… companhia… — respondeu a voz, agora mais perto, sussurrando ao ouvido. — Aqui não há frio. Não há fome. Não há solidão. Fica…
A figura deu um passo à frente. E Zé Tião viu: não tinha pés. Flutuava acima do chão, sem tocar a lama. Os olhos, dois pontos brilhantes e vazios, o fitavam. Ele lembrou então da oração que sua avó ensinara — a que se reza só quando o medo é maior que a coragem. Começou a rezar, baixo, mas com toda a força que tinha. Rezou pela família, pelo lar, pelo caminho de volta.
A figura recuou. As cruzes tremeram. A voz virou um gemido, raivoso e sofrido. A chuva parou de repente, como se o céu tivesse fechado. E no silêncio que se seguiu, ele ouviu um som baixo, gutural, vindo de todos os lados ao mesmo tempo — o som de algo que não deveria existir.
— Vá… — sussurrou a voz, agora cheia de ódio. — Mas não conte a ninguém. Pois voltaremos por você…
Zé Tião não esperou mais. Empurrou a bicicleta e correu, sem olhar para trás, sem parar, sem saber para onde ia. Correu até os pulmões doerem, até as pernas pesarem como chumbo. E quando finalmente parou, ofegante, olhou ao redor: estava na entrada da sua rua. A lua brilhava no céu, cheia e clara. A chuva tinha passado. Ao longe, viu a luz acesa da sua casa. A bicicleta estava enlameada, molhada, mas intacta. Das cruzes, da figura, da estrada estranha — nem sinal.
Ele entrou em casa em silêncio. A mulher perguntou por que demorara tanto, mas ele não respondeu. Não contou a ninguém o que viu. Por muitos anos, evitou falar daquela noite. Mas nunca mais andou sozinho quando o sol começava a descer. E dizem que, até hoje, quando alguém passa por aquela estrada ao entardecer, se prestar atenção, pode ouvir uma respiração pesada, vinda do mato. E às vezes, em noites de chuva fina, três cruzes aparecem de repente, e uma figura branca fica parada, esperando por quem não souber o caminho de volta.
Os mais velhos de Santa Isabel ainda avisam: a floresta não é só madeira e folhas. Ela tem memória. E tem fome. Sempre que a estrada parecer mais longa do que devia, sempre que uma voz chamar pelo seu nome e você não vir ninguém — não pare. Não responda. Não olhe para trás. Pois a Estrada dos Três Marcos não leva a lugar nenhum. E quem entra, às vezes, deixa parte de si lá para sempre.
Conta-se que Zé Tião viveu muitos anos depois disso, mas nunca mais foi o mesmo. Dizem que, nas noites de chuva, ele ficava sentado na porta, olhando para a escuridão, como se esperasse que a estrada viesse buscá-lo. E até hoje, ninguém tem coragem de contar quantas cruzes existem de verdade naquela estrada.
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