A Casa SobrenaturalLeitura · 5 min

Emelly Lorrane Chaves Silva

A Casa Sobrenatural

01

Leitura única

843 palavras · 5 min de leitura

Eu nunca fui uma pessoa de acreditar facilmente em histórias de assombração. Quando me mudei com minha família para uma casa no bairro Triângulo, em Santa Isabel, rua Manoel Gaudêncio dos Santos, tudo o que eu queria era um lugar tranquilo para criar meus filhos. A casa era simples, antiga, mas parecia confortável. O que eu não sabia era que os moradores da redondeza já conheciam a fama daquele lugar. Ninguém me contou nada. Talvez porque achassem que eram apenas histórias. Talvez porque não quisessem me assustar. Mas eu descobriria da pior forma. Nos primeiros dias, tudo parecia normal. Durante o dia, a casa era silenciosa e comum. Porém, quando a noite chegava, algo mudava. Primeiro vieram os pequenos detalhes. Uma janela que batia sem vento. Uma porta que rangia e se fechava sozinha.

Objetos que pareciam mudar de lugar.

Depois vieram os sons. Passos, passos lentos e pesados atravessando os cômodos da casa durante a madrugada. Eu sempre pensava que fosse alguém tentando entrar.

Muitas vezes me levantava assustada, acendia as luzes e verificava cada canto. Nunca havia ninguém. Mas os passos continuavam. Naquela época eu estava grávida da minha filha mais nova. Meu marido trabalhava à noite, e eu ficava sozinha com meu primogênito, meu filho de apenas dois anos. As noites se tornaram longas. Eu me cobria da cabeça aos pés e permanecia imóvel, ouvindo os ruídos que vinham dos corredores escuros.

Então comecei a enxergar coisas. A primeira vez aconteceu de madrugada. Acordei sem motivo aparente. O quarto estava mergulhado na escuridão.

Foi quando senti uma sensação estranha, como se alguém estivesse me observando. Olhei devagar para cima. E vi. Uma figura humana estava agachada sobre a parede, próxima ao telhado. A casa não tinha forro. A silhueta permanecia imóvel. Era um homem usando uma blusa escura com capuz. Ele não falava. Não se movia. Apenas observava.

Fechei os olhos imediatamente, tentando convencer a mim mesma de que estava sonhando. Quando criei coragem para olhar novamente, ele havia desaparecido. Mas aquilo não foi a última vez.

Pelo contrário. Depois daquela noite, passei a vê-lo com frequência. Às vezes caminhando pelos cômodos. Às vezes parado em algum canto escuro. Sempre em silêncio. Sempre observando. O medo passou a fazer parte da minha rotina.

Mas nada me preparou para o que aconteceu certa noite. Eu estava lavando a louça enquanto meu primogênito assistia televisão na sala. O som da água correndo pela pia era a única coisa que quebrava o silêncio.

Foi então que notei algo estranho. Meu filho estava sentado no sofá com as mãos cobrindo o rosto. Deixei a torneira ligada.

— Filho, o que aconteceu?

Ele demorou alguns segundos para responder. Quando respondeu, sua voz saiu baixa e trêmula.

— Mãe...

— O que foi?

Ele apontou para o espaço vazio ao lado dele.

— Tem um homem sentado aqui.

Por um instante, senti meu sangue gelar. Meu filho tinha apenas dois anos. Era impossível que ele conhecesse as histórias da casa. Mesmo assim, estava descrevendo exatamente aquilo que eu via.

Peguei-o nos braços. Nem me preocupei em fechar a torneira. Corri para o quarto. Tranquei a porta. E chorei. Naquela noite, orei como nunca havia orado antes.

Os acontecimentos continuaram.

Portas batiam. Passos ecoavam pelos corredores. Às vezes eu tinha a impressão de ouvir alguém sussurrando meu nome durante a madrugada. Como se algo quisesse chamar minha atenção. Como se algo soubesse que eu estava ali.

Os vizinhos começaram a contar histórias. Disseram que aquilo acontecia havia anos. Outras famílias também tinham ido embora. Uma antiga moradora contou que objetos desapareciam misteriosamente do seu quintal. Certa vez, ela subiu no muro para descobrir quem estava pegando suas coisas. Quando olhou para perto da mangueira, viu um homem parado debaixo da árvore. Imóvel. Observando. Ela desceu correndo e nunca mais voltou a olhar para aquele quintal da casa onde eu morava durante a noite.

Com o passar do tempo, eu já não suportava mais viver ali. A sensação constante de estar sendo observada. Os ruídos.

As aparições. O medo. Tudo aquilo consumia minhas forças. Até que tomei uma decisão. Fui embora.

Quando deixei aquela casa, nunca mais vi a figura do homem de capuz.

As noites voltaram a ser silenciosas. Os passos desapareceram. As torneiras não se abriam sozinhas. E eu finalmente consegui dormir em paz.

Anos depois, soube que a casa havia sido vendida. Os novos proprietários reformaram tudo. Derrubaram paredes. Mudaram a estrutura.

Praticamente construíram uma nova casa sobre a antiga. Mas existe algo curioso sobre certos lugares. Você pode derrubar paredes. Pode trocar portas e janelas. Pode reconstruir tudo. Mas não pode apagar aquilo que ficou enterrado no passado.

Os moradores mais antigos do bairro contam que toda aquela região era um antigo cemitério. Dizem que corpos eram enterrados ali muitos anos atrás. Ninguém sabe ao certo se é verdade.

Talvez seja apenas uma lenda. Talvez não. Mas, ainda hoje, quando passo próximo daquela rua, uma lembrança volta à minha mente. A imagem daquele homem de capuz. Agachado sobre a parede.

Imóvel.

Esperando.

Como se nunca tivesse ido embora.