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A Carroça dos Ossos: O Assombro da Fonte do HospitalLeitura · 7 min

Ariane Lima de Lima

A Carroça dos Ossos: O Assombro da Fonte do Hospital

01

Leitura única

1229 palavras · 7 min de leitura

Conta Seu João, com a voz baixa e o olhar perdido no tempo, como se visse o horror se repetir diante dos seus olhos, que nos tempos de antigamente — quando as ruas de Santa Isabel ainda eram de barro vermelho e a escuridão da madrugada era tão densa que parecia pesar sobre os ombros — ninguém, mas ninguém mesmo, tinha coragem de colocar os pés perto do hospital depois que o sino da matriz batia as onze badaladas.

E não era medo de doença, nem de ladrão, nem de bicho do mato. Era pavor. Pavor da coisa que saía das sombras toda noite, arrastando uma presença gelada que fazia até as folhas das árvores pararem de balançar. Era a Carroça Sem Ninguém.

— Eu ouvi, eu vi, e até hoje, quando chove e venta forte, eu acordo assustado, ouvindo aquele som... — sussurrava Seu João, cruzando os braços como se sentisse o frio de novo. — Ela vinha vindo devagar, devagar, como se carregasse o peso de todos os mortos do mundo. Ouvia-se de longe, antes mesmo de ver qualquer vulto: creck... creck... creck... Um ranger de madeira velha, seca, rangendo e chiando como se estivesse sendo esmagada. Um som que gelava o sangue na veia, que apertava o peito, que fazia o coração disparar de um jeito que parecia que ia sair pela boca.

E o pior de tudo, o que fazia o cabelo arrepiar da raiz às pontas: não havia ninguém.

Nenhum cavalo puxando. Nenhuma rédea nas mãos. Nenhuma sombra de condutor. Nenhuma voz de comando. A carroça simplesmente andava. Sozinha. Levada por forças que a gente nem ousa nomear, movida por almas que nunca conheceram a paz.

Dizia ele que, muito antes de construírem o hospital, aquele terreno era um lugar esquecido, cercado por mato alto e fechado. Ali, os antigos enterravam os escravos que morriam sem nome, sem família, sem uma oração que os guiasse. Eram corpos jogados em valas rasas, esquecidos, pisoteados, até que resolveram construir ali um lugar de cura. Mas os mortos não gostaram nada de serem acordados. Não gostaram de ver suas sepulturas mexidas, seu chão sagrado aberto, seu descanso interrompido. E foi assim que, na primeira noite escura, ela apareceu.

Uma carroça de madeira escura, quase preta, envelhecida pelo tempo e pela chuva, com tábuas soltas que balançavam a cada movimento, rodas gigantescas que deixavam marcas profundas na terra úmida, como cicatrizes abertas. Ela surgia de dentro da neblina baixa que descia do rio, rente ao muro do hospital, passava bem na porta principal, devagar, muito devagar, como se estivesse procurando algo... ou alguém.

E não era só o ranger das rodas que se ouvia. Por baixo daquele som de madeira rangendo, vinham outros sons, mais baixos, mais aterrorizantes: gemidos abafados, como de quem sofre em silêncio; choros cortados, pedidos de socorro que morriam na garganta; e o som metálico e seco de correntes se arrastando, batendo no chão, como se mil algemas estivessem sendo puxadas de um lado para o outro.

Seu João contou, com a voz trêmula, a história do tio Bernardino, homem forte, valente, que não tinha medo de nada — até encontrar com ela. Era uma noite de lua minguante, escura como breu. Bernardino trabalhava de vigia na farmácia ao lado, e resolveu esperar. Queria ver com os próprios olhos se era verdade o que todo mundo dizia. Pegou a lanterna de azeite, segurou firme, abriu a porta devagar, sem fazer barulho, e esperou.

O som foi chegando, crescendo, enchendo a rua vazia. Creck... creck... creck...

Quando a carroça surgiu da escuridão e passou bem diante do seu nariz, ele levantou a lanterna, apontou a luz fraca para dentro... e o que viu fez ele largar a lanterna no chão, tremer dos pés à cabeça e correr para dentro, trancar todas as fechaduras, se encolher num canto e rezar o terço inteiro, sem parar, até o sol nascer.

— Ele disse que o fundo da carroça estava cheio — contava Seu João, olhando ao redor, como se a coisa estivesse ali, ouvindo. — Não tinha gente viva, não. Era uma pilha de ossos brancos, limpos, com caveiras viradas para cima, os buracos dos olhos vazios, mas brilhando com uma luzinha fraca, verde, que vinha de dentro delas. Havia roupas velhas, rasgadas, enroladas em corpos sem forma, e umas correntes enroladas por todo lado. E no lugar onde devia estar o homem que guia... havia só uma sombra. Uma sombra comprida, escura como tinta, que se mexia devagar, se virou para ele... e ele sentiu, com toda a certeza, que estava sendo olhado.

Na mesma hora, um vento gelado, mais frio que o inverno mais rigoroso, passou por ele, congelando o ar nos pulmões. E uma voz, fina, arrastada, saiu de dentro da escuridão, bem pertinho do seu ouvido, sussurrando devagar, palavra por palavra:

“Devolva... o que é nosso... devolva... o que é nosso...”

Outra vez, uma mulher desesperada, que vinha correndo buscar remédio para o filho doente por volta da meia-noite, deu de cara com a carroça bem na esquina. Ela parou, petrificada, vendo as rodas enormes virem direto na sua direção, achando que ia ser esmagada. Mas a carroça passou direto. Atravessou por ela como se ela fosse feita de ar, como se ela não existisse. Mas o que ficou foi o cheiro. Um fedor insuportável de terra úmida, de coisa podre, de morte antiga, que grudou na pele, no cabelo, na roupa. Ela disse que, por três dias e três noites, sentia o cheiro de cemitério velho por onde quer que andasse.

Ela não aparecia em qualquer dia, não. Diziam os antigos que a presença dela era mais forte, mais assustadora, nas noites de Quaresma, nas luas novas e nas vésperas do Dia de Finados. Era como se todas as almas que vagam por Santa Isabel — até a própria Mula-Sem-Cabeça — resolvessem caminhar juntas na escuridão, unidas pela mesma dor, pelo mesmo destino de não ter paz.

Ninguém mais ousava sair de casa tarde. Quem estava doente, quem precisava de ajuda, ficava esperando o dia clarear. Porque a lenda dizia: se você encontrar a Carroça Sem Ninguém, azar o seu. Você podia ficar doente de morte, podia enlouquecer de vez, podia levar o assombro para dentro de casa, e nunca mais conseguir dormir em paz.

Hoje em dia, as ruas são calçadas, tem poste de luz em cada esquina, o mato foi cortado, o hospital cresceu, e os mais novos dizem que nunca viram nada. Mas Seu João balançava a cabeça, sério, os olhos cheios de um conhecimento que ninguém mais tinha, e avisava, com um tom que fazia arrepiar até o último fio de cabelo:

— Eles não veem porque não prestam atenção. Porque a luz afasta o que é sombra, mas não acaba com o que é antigo. O terreno continua sendo deles. Os ossos continuam lá, debaixo do chão que vocês pisam.

Ele fazia uma pausa, olhando na direção do hospital, lá no fundo, e terminava em um sussurro arrepiante:

— Mas se um dia, por descuido ou coragem boba, você passar lá na frente bem na madrugada... quando tudo estiver calado, escuro e quieto... pare um instante. Escute com todo o cuidado.

Se ouvir um ranger de madeira antiga... um gemido abafado... o bater de correntes...

Corra. Corra muito, e não olhe para trás.

Porque a Carroça Sem Ninguém pode estar passando de novo, vagando, procurando... e quem sabe, procurando você.

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