Ana Lima Galvão
A Bola de Fogo de Areia Branca
Leitura única
593 palavras · 3 min de leitura
Na comunidade de Areia Branca, onde as noites guardavam segredos antigos e o vento atravessava os campos como um sussurro esquecido, vivia o senhor Raimundo, homem simples, conhecido pelo trabalho honesto e pelas histórias que carregava consigo.
Numa noite abafada de verão, quando o céu estava coberto por nuvens pesadas e o silêncio parecia mais espesso que o habitual, seu Raimundo retornava de um terreno afastado onde fora verificar uma cerca danificada.
O caminho de volta passava por um trecho cercado de mato fechado. Apenas a luz fraca de sua lanterna lhe fazia companhia.
Foi então que algo incomum aconteceu.
Primeiro surgiu um brilho distante, quase imperceptível, entre as árvores. Raimundo pensou tratar-se de alguém caminhando com uma lamparina. Contudo, à medida que observava, percebeu que a luz não permanecia parada.
Ela flutuava.
O brilho aumentou lentamente até revelar uma esfera incandescente, suspensa acima do chão. Era uma bola de fogo.
Não se parecia com chama comum. Seu fogo não produzia fumaça, nem consumia galhos ou folhas. Movia-se em silêncio, lançando reflexos avermelhados sobre a mata e desenhando sombras tortas entre os troncos.
Raimundo sentiu o corpo endurecer.
As histórias que ouvira na infância atravessaram sua memória como vento frio.
Diziam os antigos que certas luzes surgiam para confundir viajantes ou guardar segredos enterrados pela terra. Alguns afirmavam que segui-las trazia desgraça. Outros juravam que fugir delas era ainda pior.
A bola de fogo começou a mover-se lentamente pelo caminho.
Por um instante, Raimundo pensou em correr.
Porém, havia algo naquela luz que prendia seu olhar — não apenas medo, mas uma curiosidade inquietante, quase impossível de controlar.
A esfera avançava em silêncio.
Ora subia, ora descia, desviando dos galhos como se conhecesse o caminho melhor que qualquer morador dali.
O coração do velho batia pesado.
O vento cessara.
Nem insetos cantavam.
Nem folhas se moviam.
Existiam apenas ele... e aquela estranha presença luminosa.
Sem perceber, Raimundo caminhou alguns passos atrás dela.
A mata parecia diferente. O caminho que conhecia desde jovem tornara-se desconhecido, como se a própria noite tivesse alterado sua forma.
A estranha luz o guiava mais fundo, revelando formas e caminhos nunca antes vistos na floresta que ele chamava de lar.
De repente, a bola de fogo parou.
Pairou sobre um velho cajueiro já quase morto pelo tempo.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então começou a pulsar.
A luz aumentava e diminuía como se respirasse.
Raimundo segurou a lanterna com força, sentindo um arrepio atravessar-lhe a espinha.
E naquele instante ouviu.
Não era voz. Não era animal.
Era um som baixo e distante, semelhante a um murmúrio trazido pelo vento — palavras impossíveis de compreender.
O medo venceu a curiosidade. Raimundo deu um passo para trás. Depois outro. Mas, antes que pudesse se afastar completamente, a bola de fogo elevou-se subitamente aos céus.
Subiu veloz, deixando um rastro dourado sobre a escuridão, até desaparecer entre as nuvens.
O silêncio voltou.
O velho permaneceu parado, imóvel, tentando convencer a si mesmo de que tudo não passara de ilusão.
Quando finalmente encontrou o caminho de casa, já perto da madrugada, não contou o ocorrido a ninguém.
Mas, desde aquela noite, jamais voltou sozinho por aquele trecho de Areia Branca.
E ainda hoje, entre os moradores mais antigos, há quem diga que certas noites guardam um brilho estranho sobre o mato — uma chama silenciosa que surge sem aviso e desaparece antes do amanhecer.
Alguns acreditam ser apenas fenômeno da natureza.
Outros, porém, preferem não descobrir.
Alguns brilhos na escuridão não são estrelas.
Alguns caminhos não devem ser seguidos.
E certas histórias... jamais devem ser esquecidas.